As noites no Bar do Alemão

Outro dia fazendo uma pesquisa no Google, encontrei imagens do Bar do Alemão, “botequim” ao lado do Estádio do Palmeiras, que quando frequentei, no início dos anos 70, já contava com mais de uma dezena de anos e várias dezenas de fiéis frequentadores. Recém-chegado da Bahia, eu ensaiava os primeiros passos como executivo de uma multinacional do ramo de oxigênio e, por morar aí perto, na Vila Romana, fiz do lugar o meu ponto de todas as noites para ouvir boa música, beber chope bem tirado, comer petiscos gostosos, rir e conversar. Conversar sabe com quem? Gonzaguinha, Tom Zé, Dominguinhos, Paulo Cesar Pinheiro, Arrigo Barnabé, Roberto Riberti, Paulo Vanzolini, Eduardo Gudim, Carlinhos Vergueiro e sabe mais quem?

EDIÇÃO ORIGINAL DE 16 DE SETEMBRO DE 2019. REEDITADO PARA O NOVO FORMATO DA REVISTA VIDABRASIL

E passeando pela internet, fui reencontrando grandes personagens que frequentaram o bendito lugar e outros que ainda hoje frequentam, como o cantor e compositor Eduardo Gudim, atualmente, o dono da casa, que à época, adentrava o lugar, carregando seu charme e sucessos dos festivais, ao lado do parceiraço, Paulo César Pinheiro, que além de bom compositor, era o marido da Clara Nunes.

Por lá passeava também, meu amigo de adolescência, Vicente Barreto, um serrinhense que frequentou Euclides da Cunha nos anos 60, acompanhado do pai, Moreira, um corretor de valores que namorava uma senhora no povoado de Pinhões. Vicente, já famoso naquela época, é hoje um compositor consagrado em parcerias, entre outras, com Viniciusde Moraes e Alceu Valença, com quem divide o sucesso de Morena tropicana. Vicente me conduzia entre os famosos e, através dele, bebi várias caipirinhas com Gonzaguinha em longas conversas madrugada a dentro. Com Anastácia e Dominguinhos, bebi várias doses de cachaça pura, ocorrência repetida anos depois quando encontrei o querido músico calçado em chinelos de borracha, passeando pelas ruas de Vitória,

Com Tom Zé, o encontro no Bar do alemão, foi amor à primeira vista. Meu ídolo nos tempos que morei na pensão de D. Margarida, em Salvador e ele já comandara a Tropicália, naquela época, repousava sua criatividade na calma do seu apartamento nas Perdizes onde vive até hoje, criando, cultivando flores nos jardins do condomínio e em casa, a sua doce Neusa. Lá se vão 40 anos de convivência, mesmo distante, com o genial músico baiano. Na última vez que assisti um show dele, no Teatro do Sesc em Salvador, ao me identificar na primeira fila, interrompeu o espetáculo para me deixar corado com uma inesquecível homenagem. Vida longa ao Tom!

E o magrelo Serginho Leite, músico e humorista brilhante. Criador do personagem Agnaldo Peixoto, mistura de Cauby com Timóteo. Serginho que se foi tão cedo, já era muito engraçado, mas ainda não era humorista. Era um disputadíssimo instrumentista e componente da banda de Tom Zé. Muitas vezes, fomos o motor de arranque do Dodge Dart vermelho que ele pilotava.

 

 

Dia 10 de julho de 1973, deu uma canja na casa, um vizinho ilustre que morava noedifício ao lado. Nada mais nada menos do que o grande Agostinho dos Santos que comemorava a temporada que faria em Paris e seria iniciada naquela semana. Agostinho morreu no dia seguinte, no voo da Varig que caiu ao chegar no Aeroporto de Orly.

 

 

Além de músicos como Pulo Vanzolini, Odair Cabeça de Poeta, Helton Medeiros, ele mesmo, o grande sambista carioca que morreu esta semana, Arrigo Barnabé, Carlinhos Vergueiro, Roberto Riberti (parceiro de Gudim), o produtor Pelão, Edgard Gianullo, humorista e ator de sucesso em comerciais de TV, brilhante violonista até hoje em atividade, havia também o impressionante time da casa. Dagoberto, o dono, caixa e instrumentista. Nelsinho e sua bela mulher, sempre presente, era uma espécie de sócio e virtuoso cavaquinhista. Completava o time, Sinval, garçom baiano sempre disponível para uma piada e para uma chorada no chope.

 

Raimundo Monte Santo, o Raimundinho, que viveu grande parte da sua infância e adolescência em Euclides da Cunha e chegou a fazer sucesso em um festival com a Música América Neblina, também pontou na casa, mas esse, levado por mim. Não o via há alguns anos. Nos encontramos na noite Paulista e fomos parar no Bar do Alemão. Penso que foi naquela madrugada, depois que nos despedimos, que ele morreu em um trágico acidente na Avenida Paulista em frente ao MAM.

 

Fechando as memórias da noite, um espaço especial para um cidadão de Araras, um jovem médico conhecido pelas iniciais LACO, Luiz Alberto Chaves de Oliveira. Marcante por ser simpático, querido por todos e por andar sempre acompanhado de uma bela irmã, se não me engano, Regina. Nessa pesquisa de internet, encontro a brilhante trajetória do médico Laco, tendo ocupado importantes posições na saúde pública de São Paulo, atualmente aposentado e vivendo ao lado da mulher amada, em uma praia no interior de Alagoas. Vida longa a todos nós que ainda estamos aqui!

                                                             Por Celso Mathias

Amor que mata – Violência entre casais – principalmente contra a mulher

 

A Violência enquanto as pessoas estão casadas é tema, infelizmente, bastante conhecido. Ultimamente, entretanto, estudos mostram que a violência começa mesmo é no namoro. É preciso mostrar urgentemente aos adolescentes que gostar de alguém não dá direito a qualquer tipo de agressão ou constrangimento. Becky completou 17 anos, é inteligente, divertida e pretende ser profissional do humor.

Ao conhecer Kip, atraente, apaixonado, e preocupado com cada detalhe da sua vida, descobriu aos poucos que aquilo que parecia ser uma deliciosa paixão, transformara-se em angustia e prisão: Ele controla todos os passos da garota, interfere em seu relacionamento com amigos, persegue-a, terminando por agredi-la fisicamente. Nesse ponto, Becky toma consciência de que a paixão pode não ser exatamente aquilo que pensava. Entretanto, o caminho para se libertar de um namorado possessivo é mais complicado do que o que ela imaginava – aliás, muito parecido com o de libertar-se de um vício. A ajuda da família e dos amigos vai ser imprescindível…

Impressionada coma quantidade de casos de violência entre namorados adolescentes, a jornalista americana Janet Tashjian resolveu chamar a atenção dos seus leitores e escreveu o livro ‘Amor no fio da navalha’. O livro conta uma história que pode acontecer com milhares de adolescentes de qualquer quadrante do planeta

“Se tem ciúmes, é porque gosta de mim” A pesquisadora Carla Martins costumou-se a ouvir esse injustificável chavão. “O que acontece é que os adolescentes, embora reprovem a violência abstrata, depois encontram justificativas e desculpam a violência em situações específicas, como os ciúmes ou a infidelidade”, explica. Por violência não se entende apenas murros e pontapés. “A violência mais comum é a emocional (insultos, humilhações, ameaças, tentativas de controle) e a pequena violência física (bofetadas, empurrões)”, observa Carla.

Apesar do progresso no que diz respeito a condição feminina, as mulheres ainda são educadas para idealizar o amor. No entanto, uma das grandes diferenças entre a violência nas relações adultas e nos adolescentes é que as mais jovens também são agressivas nas suas relações amorosas. “Mas é verdade que as mulheres parecem sofrer mais a influência de um certo discurso sobre o amor e o romanceado, aquele que acredita que o ‘verdadeiro amor’ sobrevive a tudo, inclusive a agressões físicas e psicológicas. São as que acreditam que o amor é capaz de mudar tudo”, alfineta Carla.

Os grandes problemas são culturais: por exemplo, o namoro valoriza as mulheres. “Continua uma forma de afirmação social”, confirma a educadora Maria Leitão. “No curso secundário, tentamos mostrar-lhes que não precisam ter um namorado para se sentirem valorizadas. Mas é uma tarefa difícil. Elas preferem o Antes mal acompanhada do que só. Aprender a resolver um conflito de modo não-agressivo, como respeitar os direitos dos outros, como declarar uma situação que não os satisfaz, são aprendizagens que desenvolvemos com os estudantes para eles perceberem que há outras formas de nos relacionarmos que não sejam violentas. E também como forma de prevenção: para que, quando arranjem um namorado, não permitam que essas situações aconteçam. ”

 

Como afirma Janet Tashjian, autora de Becky: “Na nossa cultura, rapazes e moças nadam contra a fortíssima corrente da violência. As moças carregam frequentemente o fardo da raiva e da frustração dos rapazes. Ajudar ambos os lados a encontrar uma solução significa eliminar a raiz da violência na nossa sociedade. Temos muito trabalho à frente.

 

“Os homens também são vítimas desse tipo de ocorrência, e estas não são relações dentro das quais eles se sintam bem”, defende a professora Maria Leitão. “Socialmente, são obrigados a desempenhar um papel que não os satisfaz, mas

 não têm outro! Eles comportam-se da maneira que acham que lhes é exigida. Tentamos mostrar aos rapazes que, para serem homens, não precisam ser violentos. E ao recusar a violência, serão mais felizes. O problema é que mesmo algumas mulheres esperam deles a violência como afirmação. É fundamental apresentar novos modelos de masculinidade aos jovens, ou eles continuarão achando que não ser violento é ser homossexual. E no contexto de homofobia da sociedade, eles preferem tudo menos ser homossexual! ”

“Devemos, antes de mais nada, transmitir muito claramente, no nosso discurso e comportamento, que a violência é inaceitável, em qualquer circunstância e qualquer que seja a desculpa. Podemos educar os filhos para que sejam assertivos e não agressivos. Podemos enfatizar a ideia de que o respeito faz parte integrante do amor. E que o amor não implica anulação nem fusão com o outro. Os pais têm de perceber que os filhos não são deles, são do mundo”. Encerra Carla.

Autor: Celso Mathias

Ático: de Monte Santo para os mais elegantes salões de São Paulo

Conheci Seo Ático nos 80, quando, ao lado do meu saudoso tio José Mathias, nos hospedávamos no Ca’d’Oro, sempre que íamos a São Paulo. Naquela época, eu ainda não tinha noção da dimensão, daquele pequeno e gentil ser, muito menos, da origem dele. Anos depois, ao receber para jantar no Fasano, algumas amigas euclidenses, entre elas, a querida Nicinha Abreu, fomos servidos por aquele senhor tão simpático que nos servira no Ca’d’Oro. Aí sim, descobri de quem se tratava e que nascera na vizinha Monte Santo. No final da noite, cozinha fechada e tendo à nossa mesa a honrosa companhia do grande Sommelier Manoel Beato, ficamos sabendo de inúmeras histórias de Ático Alves de Souza. Ele nos deixou em 17 de janeiro último, aos 95 anos, já como lenda na sua área de atuação.

                                                                                                                                   Celso Mathias

 

 

 

O texto de Sibele Oliveira, conta com muita emoção, um pouco da trajetória desse ilustre montessantense!

Ático Alves de Souza ficou parado no caixa do restaurante Parigi, enquanto a filha contava para uma funcionária da casa que tinha surgido uma vaga para ele numa casa de repouso, no bairro do Morumbi. Tido pelos colegas como um grande contador de histórias, naquele momento o maître economizou nas palavras. Nem seu rosto, cujas linhas bem marcadas revelavam a carreira longeva, entregou o que ele estava sentindo no último dia de trabalho, depois de 70 anos na ativa. A ficha dele não tinha caído….

Naquela quarta-feira, no final de 2019, Ático tinha trabalhado normalmente. Serviu os clientes, alguns deles amigos de longa data que conhecia desde que eram crianças. “Se não repetir, é porque não gostou”, brincava, como era de costume. Durante a conversa entre a filha e a funcionária, ele já não vestia o smoking de todos os dias para empurrar o carrinho de prata com o qual transportava o bollito misto — cozido italiano de carnes, legumes, molho e raiz-forte — de mesa em mesa. Em vez do traje clássico, usava um suéter cinza igualmente alinhado. Foi com a costumeira elegância que seu Ático, como era conhecido pelos clientes, saiu do restaurante pela última vez. A decisão não partiu dele, mas dos filhos, preocupados com as falhas de memória do pai. Se dependesse do maître, continuaria mais tempo no salão servindo o bollito e distribuindo cumprimentos, simpatia, sorrisos e conversas aos clientes.

Amava tanto o ofício que adiou a aposentadoria várias vezes. Apesar de ter 92 anos, achava que era cedo para parar de trabalhar. Dava expediente às quartas e domingos. Chegava ao restaurante por volta das 11h30 e ia embora às 15h. Pegava um ônibus de Guarulhos, onde morava, até o Tucuruvi, na zona norte de São Paulo, e outro até a av. Brigadeiro Faria Lima. Só deixou de ir ao restaurante sozinho quando vieram os esquecimentos. Passou então a ir ao trabalho com um dos filhos.

Os funcionários foram pegos de surpresa com a notícia, embora soubessem que esse dia não demoraria a chegar, já que nos últimos tempos Ático andava se esquecendo das coisas.


Eric Berland (à esq), e Ático Alves de Souza, em seu último dia de trabalho, no final de 2019 Imagem: Eric Berland/Arquivo Pessoal.

 

“Ele era maravilhoso comigo. Quase um pai brasileiro, já que sou francês”, lembra Eric Berland, 58, chef do Parigi, que trabalhou com ele por 21 anos. Ático gostava de

contar histórias do passado, do dia a dia com a adorada esposa Dolores e com os filhos. Também era um ouvinte habilidoso e extremamente gentil. Por isso, os colegas se emocionaram tanto com a saída dele.

 

 

 

 

 

 

 

Começo difícilNascido em Monte Santo, no interior da Bahia, Ático passou por maus bocados. Aos oito anos, já trabalhava na roça. Passava o dia inteiro com o cabo da enxada na mão e vira e mexe via cangaceiros sertão adentro. Quando cresceu, tentou ganhar a vida plantando feijão, mas o sol não colaborou e a colheita ficou muito aquém de suas expectativas. Descontente, decidiu abandonar a terra natal. Foi de pau de arara até Minas Gerais, pegou carona num caminhão até o Rio de Janeiro e depois um ônibus para São Paulo.

Chegando à capital, em 1949, conseguiu um emprego de faxineiro numa casa noturna que também tinha restaurante, no centro da cidade. Também trabalhou no escritório da Confeitaria Fasano, mas logo passou para os salões de três restaurantes tradicionais de São Paulo. Primeiro abraçou a chance dada por Fabrizio Guzzoni, proprietário do Ca’d’Oro. Começou de baixo, como cumim, mas em pouco tempo ascendeu ao cargo de maître. Por lá ficou 37 anos.

Saiu para voltar ao grupo Fasano. Depois de nove anos no restaurante principal, permaneceu os últimos 21 no Parigi. Dono de uma carreira bem-sucedida, serviu vários presidentes brasileiros. Entre eles Getúlio Vargas, que descrevia como um homem sério, mas não aborrecido. Em suas palavras, João Figueiredo era o mais brincalhão de todos. “Só não atendi mesmo o Lula como presidente. Ele eu atendi como deputado federal”, contou em uma entrevista no YouTube. Além de políticos, perdeu a conta de quantos artistas e personalidades conheceu no exercício da profissão.

Tinha orgulho de atender tanta gente importante, mesmo sendo semianalfabeto. “Minha vida é um romance”, dizia, referindo-se à trajetória de menino pobre a um dos maîtres mais conhecidos de São Paulo. Nunca deixou de ser um homem simples, que tinha os clientes como professores. Com eles aprendeu a falar, a calar-se e a se aproximar de uma mesa na hora certa.

A educação, uma das marcas de Ático, ele aprendeu com a mãe, mulher humilde que teve 18 filhos e criou 12. Seu jeito agradava às pessoas de todas as idades. Tanto que muitas frequentavam o Parigi só por causa dele. Gabava-se de, em 67 anos nos salões dos restaurantes, nunca ter recebido uma queixa de um cliente. Fez por merecer a aprovação. Jamais se queixou de passar horas a fio em pé, correndo de um lado a outro para dar conta de atender com perfeição.

Reconhecimento até o fim Embora nunca tenha comandado uma cozinha, esse era um talento não explorado de Ático. Uma vez, quando ainda trabalhava no Ca’d’Oro, recebeu um pedido inusitado do amigo Geraldo de F. Forbes: fazer pastéis de arroz, carne e feijão. Mesmo tão afeito a regras, decidiu infringi-las. Preparou os salgados e, de quebra, fritou bananas de sobremesa. Sentindo o aroma de longe, os clientes também quiseram e, a partir daquele dia, a nova opção foi incluída no cardápio. Fez tanto sucesso que foi imitado por outros restaurantes.

Parte do mérito do bollito do Parigi, um chamariz de público, era de Ático. Os anos deram a ele experiência e uma precisão cada vez maior na hora de cortar e compor o prato. Exigente que era, sempre achava que podia se aperfeiçoar mais, apesar de seu trabalho beirar a perfeição. E o reconhecimento sempre vinha, de um jeito ou de outro. Décadas atrás, o serviço irretocável rendeu a ele a Comenda da Ordem do Trabalho, outorgada pelo ex-ministro do Trabalho Almir Pazzianotto.

 


Ático Alves de Souza, em seu último dia de trabalho, ao lado de Sebastião Brito, carregador de pratos Imagem: Eric Berland/Arquivo Pessoal.

Nos últimos anos, a mão de Ático foi perdendo a firmeza. Seu cansaço também era evidente. Mas ele amava tanto estar entre os clientes que evitava pensar que não tinha mais condições de prosseguir no salão. Coube a Odair Brito, o garçom que trabalhava com ele, assumir a tarefa de cortar o bollito.

O maître ainda ficou mais um tempo, até que seus filhos se viram forçados a tomar a decisão por ele. Após o derradeiro dia de trabalho do veterano, Odair ficou responsável pelo serviço, até hoje oferecido no Parigi.

Ático não estava deixando apenas a profissão para trás. Também começou uma vida nova na casa de repouso, ao lado de Dolores. Muito querido pelos antigos colegas de trabalho, recebeu a visita de alguns nos dois últimos anos. “Tenho vontade de voltar a trabalhar”, certa vez confessou a Bruno Ribeiro Moreira, 37, ex-gerente do Parigi. Valdemir Melo, 54, maître do restaurante e enfermeiro, foi outro que continuou visitando o amigo e levando presentes, inclusive os que os clientes deixavam no restaurante para ele.

 

 

Em julho de 2021, Valdemir levou à casa de repouso a encenação de Lampião e Maria Bonita, interpretando o papel-título. Vendo a história familiar, o senhor de 95 anos chorou durante a peça inteira. Antes do Natal, quando recebeu uma nova visita do amigo, Ático repetiu: “Quero sair daqui para trabalhar”. Em janeiro escorregou, quebrou o fêmur e foi submetido a uma cirurgia. Voltou para casa para se recuperar. Dias depois, já na casa de repouso, sofreu um mal súbito à noite e faleceu. Deixa mulher, dois filhos e netos.

 

                                                                                                            Por Sibele Oliveira

 

                                                                                                              

Videochamadas

 

 

 

 

 

A chamada é encerrada com você sorrindo pra mim como uma criança e — devo admitir — eu também. Mais um convite direto do banheiro de onde você me pede para te “ajudar” no sexo solitário que — confissão sua — é uma prática cultivada desde a sua mais tenra infância. Só não fiquei mais surpresa com esse seu segredo, porque

 

 

 

conheço a rotina de sua vida. Se, por um lado, é uma brincadeira anômala, por outro, não deixa de ser inofensiva. Válvula de escape, transgressão sem culpa. Culpa? Sim, a culpa é componente incontornável nessa nossa história. Difícil imaginar como não seria assim, se a mentira constrói boa parte das verdades sociais.

Nunca imaginei que essas suas chamadas secretas fossem se tornar frequentes. Em parte, a curiosidade superou a opinião bastante negativa que tenho acerca desse tipo de encontro sexual. Interessante é que aconteceu justamente depois de havermos tomado certas medidas de distanciamento. Não que não seja bom ter você na cama. É bom até demais. O problema é que o seu papel na minha vida é outro. E sabemos disso desde aquela sua inusitada visita, com direito a chuvas e a trovoadas. Enfim, sou eu e meus racionalismos. E tem a culpa, etc. e tal. Conversamos. Não nos vejo sobrevivendo como amantes. O receio de darmos alguma pista, o medo de sermos flagrados em alguma inconsistência e até mesmo o fato de sermos amigos tão leves e alegres. Quando estamos juntos, brincamos o tempo todo. Tipo aquela vez que me assustei quando dei com você debaixo da mesa alisando as minhas pernas. E o que fiz? Me enfiei lá embaixo também, só pra brincar com você. Nada de mais, não fosse uma tarde de trabalho no escritório, com gente séria do outro lado da porta. Isso sinaliza um bem-estar que alguém sempre pode notar, maliciosamente. Melhor parar, dar um tempo. Mas então você argumentou que gosta de sexo também quando está sozinho, e que sozinho não faz mal, porque não seria traição. Coisa de criança, retruquei. Você apenas sorriu e balançou a cabeça como quem diz: me aguarde.

Chamadas de vídeo são uma rotina de trabalho para nós dois, razão pela qual não me assustei ao aceitar mais uma, mesmo fora de hora. Só que não era mais uma. Em lugar do republicano ambiente onde você trabalha quando está em casa, vi o seu rosto bem de perto, tomando todo o écran do celular, com o dedo indicador sobre os lábios me pedindo silêncio. Estranhei a princípio, e só entendi depois, ao perceber que você foi afastando a câmera de seu rosto, aos poucos, bem devagar. Pude ver então que você estava sem camisa. Mais abaixo, você parou, para me mostrar, em close, o tamanho e o estado do seu desejo. Tudo aquilo era tão inusitado que encerrei a chamada, não sem assistir um pouquinho mais do seu show. A coisa toda se deu tarde da noite. Depois de um jantar em família que acontecera horas antes.

 

Eu, de convidada, estava até bonita, usando roupas que raramente uso, tipo aquela calça branca justa, saltos altos e batom. Um pouco culpa sua esse meu reencontro com a vaidade. De fato, me preparei naquela noite para causar surpresa. E causei. Afinal, minha regra básica de elegância não dispensa a discrição. Mas, naquela noite, de caso pensado, eu fui, sim, mais ousada que de hábito. E fiz questão de lhe contar que, entre a roupa e o meu corpo, não havia mais nada. Divertido constatar quantas vezes você, acidentalmente, me tocava de leve sempre que podia, embora mal nos olhássemos no cerimonioso jantar. Só mais tarde, porém, você fez questão de me mostrar o tamanho do seu desejo, por vídeo, e em close.

 

Dias depois, uma chamada com direito a susto. Você arrumando o celular para que eu pudesse, de baixo para cima, contemplar toda sua tesão, quando soou uma batida fortíssima na porta do banheiro onde você estava. Deu para ouvir o seu nome pronunciado com força e irritação, com a frase: “Vai demorar muito ainda?!” Seguiu-se daí o imediato encerramento da transmissão.

 

 

 

Outra vez, você me chamou da praia, enfiado no banheiro, contornando família, hóspedes e convidados. Escondido de todos, fazia das suas, silenciosamente. E eu só observando, rindo por dentro e por fora, enquanto fingia que ia tirar a roupa na sua frente, até tirar mesmo, só pra ver sua cara e a minha, ambos dando risada de nossa tão condenável transgressão.

 

 

Aliás, segundo você, fazendo assim, não há nenhuma transgressão. Traição virtual não existe. Quando entendi que esta era a sua justificativa, me lembrei de ter lido alguma coisa sobre transação de consciência. É uma espécie de negociação que acontece sempre que a culpa de alguém se torna mais leve. O sujeito se convence de que, embora agindo mal, poderia ter feito pior, mas não fez. Tipo a prostituta que se admite como tal, mas assevera ao cliente que sempre respeitou o alheio: “Verdade que sou puta, mas não sou ladra, não!”. Ou o ladrão que, admitindo roubar, ressalta o fato de não ser assassino. Exemplos fortes, mas didáticos. Há outros mais leves, tipo a torta que comi inteira, porém acompanhada de refri diet e seguida de cafezinho sem açúcar. Seu raciocínio acerca de sexo é uma operação muito semelhante: somos absolvidos de um pecado que só acontece na consciência e, é claro, no instante virtual, em que pese nada virtuoso.

 

Hoje não foi diferente. De bem longe desta vez, você me chamou de manhã. Caprichando no zoom, mostrou-se todo, sem roupa alguma, dando a entender que queria me ver de perto também. Coisas que se passaram ao som do chuveiro ligado, para disfarçar de todo mundo o que você apronta fechado no banheiro com seu celular.  Tudo isso tranquilamente. Afinal, não se trata de traição. De jeito nenhum! Porque sexo por videochamada pode, não é? Sem culpas então. Negócio fechado.

 

 

                                                                                                           

 

 

                                                                                                                                             Por Beatriz Basto

Fiat 8V Supersonic 1953: essa raridade foi leiloada por mais de U$2 milhões

O carro, leiloado pela Bonhams, original de 1953, é um dos 15 modelos 8V da Fiat com o visual Supersonic produzidos junto à Ghia – famosa empresa italiana de design automobilístico. É um bólido antigo!

Edição limitada original da década de 1950 passou por uma restauração que levou oito anos para ser concluída, o Fiat 8V Supersonic, modelo que foi leiloado recentemente, tem visual aeronáutico do Supersonic é assinado pela Ghia. Colecionar carros é uma tarefa difícil: eles geralmente são maiores, muitas vezes mais raros e tão caros quanto quadros e esculturas – tudo porque alguns tiveram edição limitada e poucos sobreviveram ao tempo. Daí, quando uma edição única aparece à venda ela vira febre entre os amantes das quatro rodas.

 

O carro, leiloado pela Bonhams, original de 1953, é um dos 15 modelos 8V da Fiat com o visual Supersonic produzidos junto à Ghia – famosa empresa italiana de design automobilístico. Ele permaneceu por 36 anos nas mãos do mesmo proprietário e passou por uma restauração de oito anos que custou US$ 600 mil.

Na parte técnica, o 8V Supersonic tem embreagem manual de quatro velocidades, suspensão independente nas quatro rodas e dois carburadores Weber 36 DCF, além da válvula Fiat 8V que dá nome ao modelo. O layout segue o padrão aeronáutico dos Supersonic e tem pintura em azul com o interior em couro.

 

 

 

O motor é um original do 8V Supersonic com dois carburadores Weber 36 DCF e a válvula 8V da Fiat que dá nome ao modelo.

 

 

 

 

 

Um dos modelos mais famosos da Ghia, o Supersonic não era apenas uma questão de moda  brilhante; foi em muitos aspectos o resultado de necessidade econômica. Nos anos imediatamente seguintes a Segunda Guerra Mundial, os construtores italianos enfrentaram terríveis circunstâncias. Os principais fabricantes do país estavam lutando para retornar às condições normais de funcionamento, a economia era um modelo de instabilidade, e alguns veículos em produção eram adequados para uma Itália vitoriosa.

 

 

Em 1950, um designer talentoso, o engenheiro, Savonuzzi começou sua carreira no setor aeronáutico da Fiat, onde desenvolveu uma estreita relação de trabalho com Dante Giacosa, o homem por trás do projeto 8V.

Para a Fiat 8V, Savonuzzi criou um cupê de duas portas com base em suas experiências anteriores. Em ambos, conceito e detalhe, ele abandonou influência tradicional e olhou em direção as tendências contemporâneas na indústria aeroespacial, um campo familiar para o designer.

Em maio de 1953, o Supersonic chegou aos Estados Unidos aclamado pela crítica. Nos meses seguintes à sua chegada, foi destaque em várias publicações automotivas, incluindo todos os carros do mundo, 1954 Carros e Motor Trend.

É seguro dizer que esse Supersonic levou uma existência extraordinariamente protegida e isolada. No momento da catalogação, o velocímetro marcava apenas 26,700 km – pouco menos de 17.000 milhas. Este número espantoso é suportado pelo estado do carro altamente original, uso mínimo e proveniência hermética.

 

A pintura parece ser 80% original e possui uma bela aparência, uniforme, com todos os traços maravilhosos que vêm com décadas de uso contínuo e interação com seu cuidador em longo prazo. O Supersonic é, literalmente, original voltado para baixo para as rodas e pneus Pirelli Cinturato instalados de fábrica, e os discos originais de rodas polidas são o único conjunto original conhecido por ter sobrevivido intacta.

A raridade alcanço no leilão, mais de US$2 milhões (mais de R$10milhões).

Amores e desamores

Joane e Gil Dionisio comemoram no último sábado, idade nova dela. Falando sobre vinhos no Excelsior Gourmet, o querido Maurício Ferreira. Anatália e William Riley estiveram em Salvador, onde comemoram 53 anos de feliz união. Jennifer Aniston e Adam Sandler são vistos gravando sequência de filme no Havaí. Zilu Godoi, de 63 anos, compartilhou uma foto para desejar um bom-dia aos seus seguidores nas redes sociais nesta quinta-feira (3). Luiz de plantão, recebemos a visita da querida amiga Karol Mariano, que veio colocar a conversa em dia. E por falar em Restaurante Amado, a casa que tem uma das mais belas vistas e um dos ambientes mais agradáveis de Salvador, está deixando muito a desejar A decisão de dispensar teste negativo ao vírus COVID19 para entrar em Portugal, bastando apresentar o certificado di

gital ou um comprovante de vacinação. Eliana e Miguel Abreu comemoraram em Salvador, no Restaurante Pedra do Mar –Rio Vermelho, 47 anos de muito amor.

 

Niver – Joane e Gil Dionisio comemoram no último sábado, idade nova dela. Na bela vivenda do casal, amigos e familiares cantaram parabéns em clima de muita alegria e com a discrição que permeia as relações do casal. Nota 10 em tudo!

 

 

Ela é um luxo – Jennifer Aniston e Adam Sandler são vistos gravando sequência de filme no Havaí. Eles gravam a sequência do longa Mistério no Mediterrâneo, filme muito assistido na Netflix. Para a ocasião, a atriz, de 52 anos de idade, usava saia estampada, chapéu e um top verde, que deixou à mostra seus braços torneados enquanto ela caminhava pelo set de filmagens.

 

 

From Rio to Salvador – Anatália e William Riley estiveram em Salvador, onde comemoram 53 anos de feliz união. Revisitaram os pontos tradicionais da capital baiana, se deliciaram com a boa cozinha do Maximo Cremonini, curtiram a tarde de domingo na Casa Mia do incrível Alessandro Narduzzi e encerraram a visita com um jantar iniciado ao pôr do sol, no Restaurante Amado, encerrado com passos de dança ensaiados na saída do belo espaço gastronômico.

 

Oncinha – Zilu Godoi, de 63 anos, compartilhou uma foto para desejar um bom-dia aos seus segui

dores nas redes sociais nesta quinta-feira (3). Na imagem — tirada na sala de sua casa, nos Estados Unidos — ela aparece deitada em uma poltrona, vestindo uma camisola e um robe com estampa de oncinha e renda.

 

 

 

 

Com Karol – Luiz de plantão, recebemos a visita da querida amiga Karol Mariano, que veio colocar a conversa em dia. Como sempre, elegante e atenciosa, trouxe um delicioso Ceviche, que apreciamos acompanhado do excelente Espumante Vezzi.

Desamor – E por falar em Restaurante Amado, a casa que tem uma das mais belas vistas e um dos ambientes mais agradáveis de Salvador, está deixando muito a desejar no serviço e mesmo no cardápio. Lugar que já mereceu nota 10, hoje, não passa de 7, com ressalvas. O couvert é inqualificável e, no que nos foi servido, nada especial que justificasse, por exemplo, os preços. As cadeiras da varanda precisam e urgentemente ser trocadas. São muito desconfortáveis. Tudo isso pode ser corrigido com um olhar mais atento e cuidadoso do renomado Chef Edinho Engel!

 

Liberado em Portugal – A decisão de dispensar teste negativo ao vírus COVID19 para entrar em Portugal, bastando apresentar o certificado digital ou um comprovante de vacinação reconhecido, entra em vigor nesta segunda-feira, 7 de fevereiro, anunciou Governo.

Na última quinta-feira, o Governo decidiu acabar com a medida em vigor desde 1 de dezembro do ano passado, que impunha que todos os passageiros que chegassem a Portugal por via aérea eram obrigados a apresentar um teste negativo ou um certificado de recuperação no momento do desembarque.

A medida foi publicada hoje no Diário da República e “as regras nela constantes estarão em vigor a partir das 00:00 de segunda-feira, dia 7 de fevereiro”, acrescenta o comunicado. No que diz respeito à entrada em território nacional, “passa a ser exigida apenas a apresentação do Certificado Digital covid da UE nas suas três modalidades ou de outro comprovativo de vacinação devidamente reconhecido”.

 

 

 

Savoir-Vivre – Falando sobre vinhos no Excelsior Gourmet, o querido Maurício Ferreira, o homem que sabe tudo sobre o tema e exerce como ninguém, o “Savoir-Vivre”!

 

 

 

Os primeiros 47 anos – Eliana e Miguel Abreu comemoraram em Salvador, no Restaurante Pedra do Mar –Rio Vermelho, 47 anos de muito amor, carinho e cumplicidade. Convivência bonita de se ver!

A vida nos anos 50 quando eu era feliz e não sabia

Muitos dos contratos de bairro entre o comerciante e o cliente começavam pela palavra de honra e um aperto de mão. As mãos tinham a sua importância nos anos 50. Não só porque se faziam muitas coisas com as mãos; também porque as pessoas que faziam coisas com as mãos ainda não tinham começado a ser desrespeitadas e substituídas por máquinas. Não existiam retiros para idosos. Nem creches.

Não existiam retiros para idosos. Nem creches. Não falo desse tempo como de um tempo ideal, meia dúzia de coisas dos anos 50 necessitavam dessa introdução à modernidade que se chama igualdade dos direitos civis. Andamos um longo caminho. E agora, que perdemos tantas coisas, talvez fosse bom recuperar algumas…

 

Pela janela entra o som do amola-tesouras, um som de gaita de boca que me recorda a infância. A cidade antiga, com mulheres que apregoam fava-rica (uma sopa que era vendida nas ruas de Lisboa) nas esquinas e vendedores do folhetim da “Rosa do Adro”, uma novela de cordel contrabandeada nas traseiras.

 

 

 

 

Recordo o desenho da cara da Rosa do Adro, esboçado a lápis. Nunca descobri o que significava isto, Rosa do Adro. Nem idade do entendimento devia ter quando estas coisas existiam. Nasci nos anos 50. Década prodigiosa em que as pessoas, no rescaldo de duas guerras mundiais, descobriam a torradeira e o frigorífico, o DDT e a vacina da poliomielite.

 

Em breve os anos 60 tomariam conta da imaginação, com a Swinging London e os Beatles, o rock e os movimentos sociais, os hippies e as drogas. Nunca mais nada seria como era nos anos 50, em que os homens eram os chefes da família, usavam bigode e gravata, guiavam o carro (as mulheres não tinham carta) e iam para o emprego todas as manhãs para sustentar o ‘lar’. Era um mundo admiravelmente ordenado segundo a convenção, bafejado pelo bem-estar e a expansão econômica, a paz e a primeira revolução tecnológica (a televisão, a batedeira, o aspirador). Os códigos de honra eram apertados e as pessoas davam a palavra. Os mais pobres compravam açúcar amarelo e sapatos a prestações e os remediados compravam a primeira aparelhagem com som estereofônico — “this is stereo sound”, dizia um homem em basso profondo no LP de demonstração. E o primeiro eletrodoméstico. Compravam e davam a palavra de honra de que pagavam a dívida.

Muitos dos contratos de bairro entre o comerciante e o cliente começavam pela palavra de honra e um aperto de mão. As mãos tinham a sua importância nos anos 50. Não só porque se faziam muitas coisas com as mãos; também porque as pessoas que faziam coisas com as mãos ainda não tinham começado a ser desrespeitadas e substituídas por máquinas.

Os homens cuidavam do jardim, manejavam pincéis e tintas, consertavam coisas elétricas, subiam ao telhado e sabiam de canalizações. As tarefas não eram delegadas, eram distribuídas. Tudo se consertava: uma vareta de guarda-chuva, um rádio fanhoso, uma mesa manca, uma fechadura romba, uma persiana encalhada. Os rapazes ajudavam os pais (e a garagem era um momento iniciativo) e as raparigas ajudavam as mães na casa e cozinha. Os sapatos levavam meias-solas

e ninguém deitava nada fora, nem ricos nem pobres. Deitar fora era um sinal de má-criação e desperdício. O

s novos-ricos de pele descartável ainda não tinham nascido. O dinheiro era velho ou não era. As pessoas eram bem-educadas e ensinavam os mais novos a não desrespeitar os mais velhos. Não existiam lares de terceira idade. Nem creches. Não falo desse tempo como de um tempo ideal, meia dúzia de coisas dos anos 50 necessitavam dessa introdução à modernidade que se chama igualdade dos direitos civis. Eu não queria ficar pelos lavores femininos nem pela prepotência do velho código do Visconde de Seabra, em que as mulheres deviam obediência como animais domésticos. Andamos um longo caminho. O problema é que destruímos e substituímos tudo o que estava para trás e algumas das coisas que destruímos precisamos delas. Sentido de honra e de decência. Respeito pela duração.

Tudo isto me veio à cabeça quando fui ver esse filme bem escrito e inteligente que é “Gran Torino”, de Clint Eastwood (e a América de Eastwood dava um livro). O filme não é sobre violência urbana nem tolerância nem racismo nem nenhum dos temas modernosos. O filme é sobre os anos 50 e o que deles sobra. Sobre um modelo de sociedade em que a pessoas eram responsáveis por si e não dependiam dos outros nem do Estado. Em que não precisavam de ser salvas e conviviam com os seus erros e fracassos sem desculpas. A vitimologia ainda não tinha sido inventada. Muito menos o reality show e a venda da dignidade. Nem os antidepressivos para curar a mania das compras ou do sexo. Do the right thing. Faz a coisa certa. Andamos um longo caminho. E agora, que perdemos tantas coisas, talvez fosse bom recuperar algumas. Respeitar mais as concretas mãos e menos o dinheiro abstrato. Deitar menos coisas fora. Consertar outras. Respeitar o planeta e a rua, deixando de usá-los como lixeira à espera que o Estado venha atrás com o aspirador. Poupar os carros. Comprar menos tecnologias que nos despersonalizam e nos tornam twittering pardais afogados em pios irrelevantes. Escrever com a mão. Ler um livro com páginas de papel. Mexer na terra. Cozinhar com tachos e com colheres de pau. E contratar a melancolia do amola-tesouras para nos afiar as navalhas. Vamos precisar delas.

 

 

                                                                                        Autor: C.A/Agpress

 

 

 

 

Da parceria à cumplicidade

 

Saí do banho e parei para olhar você, que vinha na minha direção, recolhendo, uma por uma, peças de nossas roupas caoticamente espalhadas pela casa. Retenho a cena na memória, cada detalhe. Você caminha em um recorte de luz que te ilumina por detrás no corredor. Observo seus movimentos sempre apressados. Seu caminhar é o de quem avança pela vida com pressa. Sempre fazendo duas, três, tantas coisas ao mesmo tempo. Indo e vindo. Você não é um felino. Desfoca seus alvos. Simplesmente atira, descarrega a munição, e festeja o que acertar. Faz jus ao apelido de ogro. Um ogro alegre e brincalhão. Desajeitado até. Quem diria que não? Impossível imaginar de quanto requinte você é capaz quando fica a menos de um metro de mim. Precisamente. A menos de um metro você muda.

Volto duas casinhas e penso na cena clichê de há pouco. Ensaios eróticos. Filme talvez: o cara chega, abraça a mulher, os dois se beijam com vontade, sentem desejo imediato e começam a tirar a roupa na sala. Um chavão batido, caso o cara não fosse você e o lugar não fosse a sala de estar da minha casa. Uma poltrona serve de base para um ensaio das mais diversas posições. Você tirou parte de minha roupa mais facilmente do que eu conseguiria fazer sozinha. Não me reconheço. Mas já me habituei a deixar o meu corpo responder aos seus gestos como ele quiser. Você empurra a mesa de centro. — O meu vaso chinês sobrevive. — Depois embola o tapete enquanto me vira e me desvira de um lado para outro. Lembro da porta que pode deixar passar algum som para o lado de fora. Convido você para continuar no quarto. Impossível parar de fazer o que estamos fazendo. Você me explora com tantas mãos e bocas que não consigo atinar quantos nervos tem o meu corpo, nem quantas partes há nele que te obedecem cegamente. Depois você me acalma, sorrindo dos efeitos que o seu feito provoca em mim. Vaidade merecida. Me recomponho, ainda ofegante, e tento mudar o

ritmo. Do allegro ao andante, rumo ao adagio. Somos musicais.  No quarto, peço pra você ficar quieto e deitado. Ajeito meus travesseiros e neles faço com que você se recoste. Ainda não abri a veneziana nem as cortinas. A luz é confortável. Não faz frio nem calor. Você me olha então, esperando para saber o que vou fazer. Subitamente me dou conta de que você é outra consciência. Não é como o barro que eu modelo sob minhas mãos. Não é tampouco como as tintas que aplico sobre o papel. Mas é — pressentimento — pura matéria prima que me convida à criação.

Não tenho pressa. Agora é a minha vez. Analiso seu corpo. — Maldita lucidez! — Estou ali e estou aqui também, neste futuro de dias depois, que é o agora desta escrita. Estou com você, e estou nestas palavras. Nas linhas de seu corpo desenho letras bonitas. Toco você, e decifro, no braille de suas formas, os substantivos e a substância que te conformam. Conjugo os verbos e fico atenta aos seus suspiros de meias palavras. Nessa gramática erótica que inventamos para nós dois, quase me perco em pensamentos. Mas você me resgata. Me faz voltar ao corpo que eu não tinha mais, abandonar alma e mente para viver a realidade da carne. Você me humanizou, mas nem desconfia. No seu jeito prático, não há lugar para literatura. Você habita o mundo real, onde só existem os corpos, a pressa, a agenda, os compromissos e os prazos. As mentes são secundárias, meros veículos do desejo. O que me importa é estar na sua intimidade e ter você na minha, alternando domínios até perceber que o tempo não havia parado de todo. Um abraço, e o que somos dá lugar ao que seremos dentro de uma hora no máximo.

O relógio insiste, mas não nos importamos. Sabemos que podemos compensar esse tempo roubado às nossas rotinas. Pouco a pouco, creio que estamos aprendendo a lidar com isso. Você, como sonso, e eu, como quem vive o que houver para viver, um dia de cada vez, olhando apenas para o momento presente que eternizo depois como palavra.

Volto ao instante. Você ali no corredor em meio àquela luz, inconsciente das minhas reflexões. Roupas recolhidas e arrumadas sobre a minha cama: cueca, bermuda, camisa. Meu abrigo e a minha roupa íntima que você manipulou carinhosamente. No chão, ao lado da cama, minhas sandálias, que parecem tão pequenas perto dos seus tênis.

Você pega as toalhas que usei e entra no banho. Enquanto me visto e me recomponho, penso que não somos um casal viável na ficção. Ninguém desconfiaria de que mantemos um caso, se é que podemos falar de um “caso”, dado o peso dessa palavra, tão datada e significativa no vocabulário conservador. Não serviríamos para enredo de nenhum romance. Não temos cara de casal. A gente só acontece na vida real, a portas fechadas. Não combinamos em nada, exceto no amor ao trabalho, no companheirismo, na devoção do tentar fazer certo, na disposição em manter sempre o bom humor, em não se levar muito a sério, porque já temos, em nossas vidas, a dose de seriedade que basta.

Estamos prontos, banhados e vestidos.

Atravessamos a porta e saímos à rua como aqueles amigos de sempre.

A hora avançou. Nos apressamos. O telefone toca. Você atende normalmente enquanto dirige. Um compromisso social tipo família & cia. Eu também converso com uma voz tão firme quanto a sua. Aceito o convite. Sim, vamos todos jantar, naturalmente. Trocamos um olhar que vai da parceria à cumplicidade. Digo pra você que eu vou, sim, usando uma calça justa sem nada por baixo. Você me olha  e sorri. Dia de semana como outro qualquer. Vida que segue. Atrasos justificados. O mundo se distraía, muito ocupado, enquanto a gente transava. Penso na minha casa e nas toalhas molhadas que ficaram por lá, na mesa de centro que continua de lado e no tapete embolado. Sorrio comigo mesma, mas só por dentro. Por fora, eu continuo séria e respeitável, assim como você.

                                                                        Por Beatriz Basto

 

 

Cooperativas de crédito: um banco diferente

Além das instituições convencionais, destacam-se as chamadas cooperativas de credito, que embora muitos não saibam, hoje, mais 10 milhões de pessoas em todo o país fazem parte de cooperativas de crédito. E descubra porque.

 

E no momento difícil que o mundo atravessa em consequência da COVID19, profundas mudanças estão se processando em todos os segmentos do gênero humano. Na forma de comprar, na forma de vender, de se locomover, de se relacionar. Além das questões de saúde, a economia do planeta entrou em parafuso, atingindo, naturalmente, os pequenos e médios empresários. Nesse momento, cresceu mais ainda, a importância das instituições de créditos, sejam no momento de pagar os auxílios proveniente dos governos, seja no apoio às atividades chamadas de “não essenciais”.

Além das instituições convencionais, destacam-se as chamadas cooperativas de credito, que embora muitos não saibam, hoje, mais 10 milhões de pessoas em todo o país fazem parte de cooperativas de crédito. Além desse montante de cooperados, quase 70 mil pessoas trabalham para as 909 cooperativas de crédito brasileiras registradas.

Sobre o Sicoob – Instituição financeira cooperativa, o Sicoob tem mais de 5 milhões de cooperados e está presente em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Oferecendo serviços de conta corrente, crédito, investimento, cartões, previdência, consórcio, seguros, cobrança bancária, adquirência de meios eletrônicos de pagamento, dentre outras soluções financeiras, o Sicoob é a única instituição financeira presente em mais de 300 municípios. É formado por mais de 370 cooperativas singulares, 16 cooperativas centrais e pelo Centro Cooperativo Sicoob (CCS), composto por uma confederação e um banco cooperativo, além de processadora e bandeira de cartões, administradora de consórcios, entidade de previdência complementar, seguradora e um instituto voltado para o investimento social. Ocupa a segunda colocação entre as instituições financeiras com maior quantidade de agências no Brasil, segundo ranking do Banco Central, com 3.480 pontos de atendimento. 

Presente em 1.923 dos 5.568 municípios do País, e única Instituição financeira em 307 desses municípios, o volume de ações de crédito alcançado por Sicoob e Sicredi coloca o sistema de cooperativas à frente de instituições financeiras públicas e privadas. Uma das possíveis justificativas para a maior facilidade na obtenção de créditos nas cooperativas pode estar na natureza jurídica dessas instituições. Diferentemente dos bancos tradicionais, focados no lucro, as cooperativas têm como objetivo geração de valor para todos os cooperados. Se a cooperativa for do tipo livre admissão, qualquer pessoa física ou jurídica pode fazer um pedido para compor o quadro de associados. Além disso, as cooperativas oferecem toda a segurança nos processos, que seguem as normas do Banco Central e ofertam burocracia reduzida e juros menores que o mercado comum. Para se associar a uma dessas cooperativa, o investimento inicial varia entre R$25 Reais e R$250 Reais.

Segurança – Pela falta de informação sobre o funcionamento das cooperativas, muitas pessoas têm o receio de participar e perder dinheiro. No entanto, participar de uma cooperativa é tão seguro quanto ser cliente de um banco. Isto é, os bancos são protegidos até R$250 mil pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Ou seja, caso seja decretada a falência, é assegurada a restituição do valor por CPF e instituição. As cooperativas também possuem um fundo garantidor. O FGCOOP é o Fundo Garantidor das Cooperativas e funciona no mesmo formato. Garante o valor máximo de R$ 250 mil por CPF em caso de quebra da cooperativa.

Reconhecido no XIX Prêmio Efinance, realizado pela revista Executivos Financeiros em junho de 2019, o Sicob recebeu entre outros, na categoria Gestão de Risco, o reconhecimento pelos cases “Métodos eficientes ao combate à fraude”, “Cooperativismo dando show na Prevenção à Lavagem de Dinheiro” e “Processo de Classificação e Atribuição Automática de Limites”. No Sicoob, dependendo de seu porte e perfil, pessoas físicas podem abrir conta, ter cartões de crédito nacional e internacional, tomar empréstimos, entrar em consórcios, fazer operações de câmbio e investir em opções como previdência privada, renda fixa e até as chamadas Letras de Crédito do Agronegócio (LCA). Empresas também podem ter acesso aos investimentos, levar sua folha de pagamentos para as cooperativas, ter as populares maquininhas de cartão e oferecer vale-refeição aos seus funcionários. Representantes do sistema cooperativo e economistas ouvidos afirmaram que a grande diferença das cooperativas é que elas não visam ao lucro e, por isso, podem oferecer juros menores às pessoas e às empresas. Como os cooperados são “donos do negócio”, os resultados financeiros, que são chamados de “sobras”, e não de lucro, podem ser divididos anualmente entre eles a partir de decisão em assembleia.

A agência do Sicoob em Euclides da Cunha, por exemplo, ligada à Sociedade Cooperativa de Crédito Coopere Ltda. Sicoob Coopere, que foi fundada há quase 30 anos e tem na presidência do Conselho de Administração a senhora, Maria Vandalva Lima de Oliveira, atua com uma equipe enxuta de apenas 7 funcionários. O gerente Uilson e seus auxiliares, Pedro, Fabiana, Cristiane, Laila, Luana Oliveira e Luana Gama conhecem pelo nome, quase todos os associados (em vez de clientes mo são chamados nos bancos convencionais), criando um clima de mutua confiabilidade.

 

Em depoimento a VB, o empresário Betão Canário´, proprietário de uma distribuidora de alimentos, afirmou que utiliza os serviços do Sicoob em Euclides da Cunha desde a fundação da agência. Segundo ele, além do ambiente confortável e bom atendimento que recebe de todos os funcionários, gosta da quase nenhuma burocracia, a agilidade nas tomadas de decisões por parte da gerência e destaca a praticidade do aplicativo. “É melhor do que o dos outros bancos”, ressalta.

 

 

Curiosamente, o empresário e vitivinicultor, Renato Savaris, sócio proprietário da Maximo Boschi, uma premiadíssima vinícola que produz vinhos altamente sofisticados em Bento Gonçalves – RGS, a 3 mil quilômetros de distância, faz referências similares às ouvidas sobre a agência de Euclides da Cunha. “Ali pelo ano dois mil, nós tínhamos conta em um dos maiores bancos d o País. Ocorre que resolvemos partir para uma ampliação e esse banco ficou nos enrolando, prometendo um empréstimo com juros baixos que nunca saía. Um dia, nos sugeriram abrir uma conta no Sicoob. Fui lá e rapidinho com muita objetividade e pouca burocracia, fomos atendidos. É tudo muito tranquilo, a tecnologia deles é mais avançada do que a dos outros bancos e tem tudo que o outro banco tem”. Afirma entusiasmado.

                                                                            Por Celso Mathias

Gioielli d’Arte: vinhos encantadores da Serra Gaúcha

Mauricio Ferreira, é seguramente, um dos mais importantes gourmets da Bahia.  Mais que isso; Maurício é sinônimo de

Maurício Ferreira na foto como empresário Ivo Barbosa, leia-se rede Bel Cosméticos, outro grande apreciador de vinhos, pilotam um Château Pontet-Canet em comemoração de fim de ano

bom gosto e refinamento em tudo que o cerca e confirma isso, com a simplicidade e a generosidade em suas atitudes. Pois,

de quem tanto conhece de vinhos, a meu pedido, fez uma avaliação de três da linha Biografia, produzido pela Vinícola Maximo Boschi. Viajemos com ele!

 

 

 

 

Na noite desta quarta-feira fui agraciado com a oportunidade de degustar, por generosa indicação de meu amigo Celso Mathias, três rótulos de vinhos nacionais de um produtor incrível e que cada vez me impressiona por sua proposta de oferecer vinhos de excelência até mesmo para os padrões mais elevados. Refiro-me à coleção Biografia da Maximo Boschi, que harmonizou à nossa mesa do Yacht Clube em uma noite que contou com o belíssimo show de Flavio Venturini.

 

Os rótulos, sem exceção, muito me impressionaram, a começar pelo espumante Maximo Bosch Biografia Brut elaborado pelo método tradicional com as clássicas Chardonnay e Pinot Noir e amadurecimento por, pelo menos, 36 meses em contato com as leveduras. O resultado é a releitura perfeita para um verdadeiro champagne produzido em um pais tropical. Aliás, em todos esses anos degustando espumantes de todas as partes, sobretudo os nacionais, posso assegurar tratar-se de um dos espumantes que mais se assemelham a um Champagne legitimo. Seja pelo sabor, seja pela estrutura, seja, ainda, pela complexidade de aromas. Simplesmente soberbo e beirando à perfeição.

 

Em seguida, degustamos um Chadonnay da mesma linha Biografia, datado de 2014, já com sete anos, o que levou a um certo receio que já apresentasse sinais de fadiga e decrepitude, ledo engano… o vinhaço estava em plena forma. De corpo bem formado, com farta estrutura, se apresentou cremoso e suculento, com notas de frutas tropicais, especiarias, anis e amanteigado, bem ao estilo Bread and Butter californiano, do qual sou um grande aficionado!

Por último, para consagrar a experiência enológica, finalizamos o Maximo Boschi Biografia Merlot… confesso que hoje, 24 horas depois, ainda estou pasmo! O vinho ê maravilhoso, corpulento, saboroso, com notas frutas de cereja negra e morango, discreta tosta que emergia diante de taninos macios e enorme persistência. Enfim, um vinho amistoso, saboroso e cativante… para mim o melhor Merlot produzido no Brasil, desde a saudosa safra de 2005 do icônico Lote 43.

Enfim, vinhos incríveis que emolduraram a noite.

Maurício Ferreira

E para completar a linha de Espumantes Biografia, a Maximo Boschi, aproveitando o frio da Serra Gaúcha, que proporciona às castas cultivadas para a produção dos espumantes se desenvolverem na sua plenitude, alcançando um sabor e dulçor incomparáveis, produz, a partir dessa combinação de clima favorável e um cultivo de altíssima qualidade o Espumante Biografia Brut Rosé, a nova Gioielli d’Arte da Maximo. Um espumante de aromas marcantes, visual rosado e intenso perlage.