Na eterna Copacabana o branco que encanta

Pelos corredores do Copacabana Palace passaram reis e rainhas, a fina flor de Hollywood, as grandes vozes da canção do século XX. Até eu fiquei por lá uma temporada com direito a boas conversas à beira da piscina com a atriz e escritora Maitê Proença com direito a esticadas no recém-inaugurado Gero Carioca em companhias dos queridos amigos Anatalia e William Riley. Branca. Imponente. Imune à sombra.

A fachada do Hotel Copacabana Palace faz frente à praia musa da Bossa Nova. Na entrada do edifício 1702 da Avenida Atlântida, projetado pelo arquiteto francês Joseph Gire, há uma fila de automóveis da série milionária onde, num forno tropical, saem cavalheiros engravatados e senhoras que se equilibram em sapatos com saltos do cume da Torre Eiffel.

É regra. Antes de entrar no luxo passa-se a fronteira. Três seguranças — criaturas abençoadas pela largura dos dorsos — miram alto a baixo, direita e esquerda. O capitão-porteiro não faz caratê. Usa luvas. Só as despiu para saudar a princesa Diana. Jorge Freitas, o funcionário mais antigo da unidade hoteleira inaugurada a 13 de Agosto de 1923, dispõe de quatro décadas no ponto crucial: a porta. Viu. Ai se viu! Bill Clinton tomando sorvete. O riso compulsivo de Nicolas Sarkozy. O rigor de Bono Vox perante as fãs. A “bituca” a derreter nos dedos de Mick Jagger. A descontração de Mário Soares.

 

Rod Stewart, paciência, não voltará a pôr os calcanhares neste éden carioca. Certa noite quis transformar a sua suíte no Maracanã. Chamado pelos incomodados para interferir no “baba” do pop star, o então gerente Klaus Flunkert, um alemão carismático e considerado no ramo da hotelaria como um dos melhores profissionais do planeta, seduzido pelo bom humor e a paixão de Stuart pela bola, antes de terminar a farra teria feito varias tabelinha com o cantor, naturalmente preservando o mobiliário quase secular.

 

 

 

 

 

 

 

Já em 1942, Orson Welles, após litros de whisky sem gelo, tivera similar fúria com a ‘nega’ que levara de Dolores Del Rio. Poltrona, dois candelabros e uma mesa acabaram afogados na piscina.

 

 

A porta giratória de freijó e vidros curvos dão o aval. E eis o palácio. Os sentidos dão de caras com o aroma capim-limão. Toalhas quentes embebidas sossegam a umidade das mãos. Água no bule de prata mata a sede com classe.

O Golden Room, aquele que foi o maior palco de espetáculos do Brasil, passou a espaço cultural. Esse piso de vidro recebeu laringes de céu. Maurice Chevalier, Ella Fitzgerald, Yves Montand, Edith Piaff.

 

 

Amália Rodrigues, Tom Jobim e Marlene Dietrich que deixou memória não só pelo talento. A diva alemã, no seu show memorável em 1959, surpreendeu um funcionário ao pedir um balde de champanhe cheio de areia… Os banheiros ficavam longe. E o seu vestido colante impedia-lhe de descer os vinte degraus.

Os tempos mudaram menos a vontade de perdurar o primor de dez mil metros quadrados. Assim, em 1989, o Grupo Orient Express, adquiriu por 23 milhões de dólares o imóvel construído em 1923 pela família Guinle e adaptou sem descaracterizar a grandiosa estrutura criada pelo arquiteto Cesar Mello e Cunha. As obras de reestruturação foram muitas e continuam, No entanto, ninguém ousa tocar no piso de mármore de Carrara, nos cristais da Boemia.

Dois restaurantes novos, porém com alma antiga. Quadra de tênis, SPA, piscina paraolímpica. No prédio principal, foram remodelados cerca de 150 apartamentos e suítes. No anexo, 76 suítes foram s refeitas. Aliás, bendito anexo onde tantos encontros furtivos aconteceram. Tantos, que uma passagem secreta ligava o salão de cabeleireiros às suítes. Ali enfartos já levaram amantes ao cemitério, ali também a princesa Diana foi flagrada por paparazzis em trajes nada convencionais para uma princesa.

Nos idos de 1931, o tio da sua sogra, príncipe de Gales Edward, nobre não muito chegado a banhos, chorou as mágoas por ser rejeitado pela uruguaia Negra Bernardez… talvez até pela falta de um bom banho.

Discreto apesar dos bigodes e daquela foto da língua, quem também pousou lá, foi o físico Albert Einstein. Ele não quis assinar o livro de hospedes! Mas o Copacabana continua lá. Impávido colosso com milhares de histórias contadas e a contar.

 

                                                                           

                                                                                       

                                                                                Celso Mathias

O nosso segredo

 

 

Uma ardência absurda começou a tomar conta do meu corpo. Era quente como fogo, mas, ao mesmo tempo, era fria, refrescante até. Ah! — pensei — você me aprontou! Era isso! A história da tal balinha ultra refrescante habilmente — e põe habilidade nisso — introduzida nas minhas entranhas. Começo a rir, e você também, ao mesmo tempo em que o clima entre nós era mantido no auge do tesão. 

Olho para cima e me deparo com a imagem de nós dois refletida no espelho do teto do quarto do motel. Três horas da tarde, dia de trabalho, meio de semana, e a gente supostamente percorrendo alguma cidade satélite da capital. Volto ao clima, mas não esperava por essa. Não que você fosse fazer de verdade, sem que eu percebesse a manobra da balinha. Já entendi que você gosta de me surpreender. Como essa história de desconversar no meio do caminho. Falar em comprar uma peça para o carro em algum ferro velho da periferia. — Vamos na Robauto, — você falou. Em vez disso, depois de percorrer um trecho meio desabitado, entrou direto num motel. Simples, mas limpo, que você já conhecia dos velhos tempos da ex. 

 

Você tem uma incontornável inocência quando me apronta esse tipo de coisa. Mas acho que, com a gente, não poderia ser de outro modo. São as nossas horas, o nosso tempo apressado tomado às rotinas da vida, tempo de puro tesão, e outra palavra não há diante de corpos que funcionam sozinhos, da castidade à pornografia. Gosto de te olhar nessa metamorfose que te faz ir de ogro desajeitado até a sensualidade absurda de um Casanova. O cara que, quando em casa, família reunida, é capaz de sair da sala sorrateiramente, entrar no banheiro e me chamar para, em silêncio, exibir seu desejo no écran do celular. E eu? Entro no clima na mesma hora e, sempre que dá, me mostro em detalhes para você. Assim migramos de castos amigos e sinceros companheiros para cúmplices do que você chama de o nosso segredo.

No início foi bem difícil para mim e creio que para você também. Agora, nem tanto. Não que sejamos mais cínicos do que a maioria. Talvez mais sonsos, porque, seguramente, ninguém desconfia do que aprontamos quando estamos sozinhos. Bobagem sentir culpa por tão pouco. A gente só tem um tipo de atração que nada tem de fatal, que não prejudica ninguém, e que pouco altera essa rotina de trabalho cansativa, muitas vezes frustrante, de nossas vidas. Daí esses eventuais desvios, pontos fora da curva, que nos levam para um motel. São duas, três horas, às vezes um pouco mais, e pronto. Voltamos ao modo operacional básico. Somos, aliás, normais até demais. Quem nos vê até nos toma por conservadores, pessoas regradas e confiáveis, embora muito bem humoradas. 

Confesso que ainda não me habituei a sentir esse desejo por você, a mais improvável de todas as minhas possíveis escolhas no universo masculino. A sós comigo você é outro, ou melhor, é aquele outro que me apareceu em dia de chuva, feriado, de surpresa lá em casa. Desde então, temos colecionado essas horas extras tão íntimas ao longo das quais você é perfeito nota por nota, como instrumento que jamais desafina. E sei que você nem suspeita disso. Diante de você, sou a que se entrega e sou também esta aqui, que tudo pensa, que tudo lê e que agora escreve, enquanto escuta de longe a outra que goza e que não tem nem vergonha de gritar de prazer, de dar gargalhadas com você. É delicioso sorrir, seja agora, por conta da balinha, seja por conta de todas as outras histórias, secretas, que só têm lugar nesta literatura, subtraídas que são à realidade de nossas vidas.

Volto a olhar para cima e me vejo no espelho como a outra da qual invejo os olhos brilhantes, a pele rosada, a cintura mais fina, as pernas compridas que enroscam você, te chamando para dentro de mim. Porque nosso segundo tempo é sempre garantido, e chega antes mesmo da  prorrogação. — Aliás, como é que você consegue isso tão rápido, hein? — Misteriosos hormônios, estranhos desejos, o paradoxo: de um lado, o amigo querido; de outro, o amante que surge do nada, me beija e me acorda para a existência de um corpo que não depende sequer de mim mesma, autônomo que age mais rápido do que posso pensar. Logo eu: tão abstrata, tão teórica, tão intelecto, tão palavra que se cala quando se torna vontade. Abro a boca para o seu beijo e te saboreio como fruto proibido, sentindo na minha boca o sabor refrescante da bala misturado ao seu. 

Não faz muito, você viajou por alguns dias. No reencontro, me apareceu como visitante em plena tarde. Formalidades. Eu te avisei pra não chegar tão perto de mim. Mas você insistiu. Quis saber a cor da minha calcinha e sua mão ligeira — de onde essa maestria? — escorregou por dentro do meu jeans, enquanto a outra me puxava para o quarto de onde só saímos horas depois direto  para um banho quente, rindo e brincando, como sempre, depois de quase desmontarmos minha velha cama que, por muito pouco, não cedeu.

Dia desses, nem uma hora depois de um dos nossos pegas de escritório — tesão corporativo do intervalo — entrei em uma cafeteria para entregar documentos a um velho amigo. O sujeito me olhou como se me visse pela primeira vez na vida. Não conseguiu dissimular a surpresa. Perguntou o que eu tinha que estava assim tão bonita. Dei de ombros, sorri, falei que andava me sentindo mais espiritualizada ultimamente. Saí dali e voltei para casa, pensando que a vida é generosa quando dela não se espera mais nada. Você é gratuito. Existencial. Nosso desejo é mera contingência. É físico, extravagante, amoral, obsceno, pragmático. Verdadeira raridade, porque nos respeitamos e cuidamos um do outro. Além disso, temos o nosso segredo. E isso é tudo.

                                                                               

 

 

 

                                                                             Por Beatriz Basto

 

 

A importância do olfato na degustação do vinho

Desde que nascemos, aprendemos a ver ouvir, tocar, gostar. Mas nenhuma iniciação parece destinada a melhorar e apurar o nosso olfato. Podemos dizer que este sentido se desenvolve por si mesmo, sem que exercícios o estimulem ou disciplinem. O olfato evolui, pois, de forma diferente, segundo os indivíduos, e daí a variabilidade das sensibilidades e das capacidades de atenção  olfativa entre uma pessoa e outra. O olfato, muito desenvolvido quando nascemos, continua a ser sensível durante a infância.

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Fragmentos

Hotel Lua em meados dos anos 50

Texto produzido em 2006 e reeditado para o novo formato da Revista VidaBrasil

E, no Café Society, enquanto mastigava caramelos de café com leite, assistia a meu pai ingerir sua dosezinha de Jurubeba para forrar o estômago antes da Brahma gelada. Olhava para o outro lado da Avenida e enxergava o espetacular Hotel Lua, para mim, um dos lugares mais importantes da cidade, pois, lá, eu sentia a conexão com o mundo, através dos seus ilustres hóspedes: os viajantes. Lá, também morava Zeca Dantas que, vez por outra, atravessava a avenida e vinha até o Café Society beber cerveja.

Mordi aquele pãozinho dourado, crocante, e viajei de mala e cuia para Euclides da Cunha. Fui parar em um ensolarado fim de tarde sentado ao batente de “O Crediário”,(onde está a letra T) para quem não sabe a primeira loja de eletrodomésticos

da cidade. E olha que, naquele tempo, sequer existia essa expressão. “O Crediário” vendia de tudo. Fogão, geladeira, rádio Zilomag, porta de aço, bateria Heliar e até tratuá que nada mais era do que o piso externo de origem francesa, corruptela de “trottoir”, palavra que, hoje define uma atividade não tão nobre.

Na seta, O Crediário de Jaime Amorim da Silva anos 60

Do outro lado da “imensa avenida”, era assim que eu a enxergava até ali pelos meus 10 anos, estava a padaria de João Costa, o produtor daquela delícia que, até hoje, frequenta a minha memória gustativa. João Costa, além de padeiro, era também, delegado de polícia. Um homem alegre, inteligente e de uma impressionante velocidade de raciocínio. Naquela época, era assim! Os mais importantes cidadãos eram os comerciantes. Era também padeiro, o Raimundo Thomaz, ainda vivo e saudável, aos quase 90 anos e à frente dos seus negócios que dizem ser grandes.

O dono de “O Crediário” era meu pai, Jaime Amorim, que todos os dias, ao final da tarde, ordenava ao Dedé de Tutu ou ao

Jaime Amorim

Chico da Judite “Chico, vai ali ao João Costa e traz seis amanteigados”. Eles eram ajudantes do meu pai. O amanteigado era o pão quentinho feito pelo João Costa e untado com uma generosa quantidade de manteiga “Radiante” que era aplicada ao pão com uma espátula de madeira. O Dedé, hoje, deve ser um homem com cerca de 60 anos e vive em São Paulo. O Chico foi brutalmente assassinado em um dos becos da cidade, com menos de 20 anos de idade. Era um sujeito espirituoso, um piadista nato. Sua morte causou imensa consternação.

 

 

O sol escaldante desaparecia no fim da tarde e, a noite começava no Café Society ou Bar de Zezito como preferiam outros. O Café Society ficava na esquina da “imensa avenida”, a Ruy Barbosa, com a Praça Duque de Caxias, então apelidada de “Praça do Pau de Oliveira Brito”. Quem conhece a história da cidade sabe o porquê do apelido. Quem não conhece não pergunte porque não vou explicar, mas posso garantir que não tem nada de imoral.

Praça Duque de Caxias, então apelidada de Praça do Pau de Oliveira Brito

Foi o Zezito do Belo, ou Zezito do Bar ou Zezito do Alto-falante quem deu esse apelido à praça. Ele foi um homem à frente do seu tempo. Fundou o primeiro cinema da cidade, o primeiro serviço de alto-falantes, foi proprietário de um dos

Zezito Campos entre a bela Alba Carvalho e o governador Lomanto Júnior

primeiros automóveis e, ainda por cima, em pleno sertão baiano, onde há pouco tempo Lampião passara semeando brutalidade e terror, inaugura um bar cujo nome é Café Society, expressão em voga no Jet Set mundial.

E, no Café Society, enquanto mastigava caramelos de café com leite, assistia a meu pai ingerir sua dosezinha de Jurubeba para forrar o estômago antes da Brahma gelada. Olhava para o outro lado da Avenida e enxergava o espetacular Hotel Lua, para mim, um dos lugares mais importantes da cidade, pois, lá, eu sentia a conexão com o mundo, através dos seus ilustres hóspedes; os viajantes. Lá, também morava Zeca Dantas que, vez por outra, atravessava a avenida e vinha até o Café Society beber cerveja, abrir o sorriso largo e a gargalhada estridente brindando com o não menos ilustre, o sobrinho Nelson Bastos. Zeca Dantas se foi aos quase 100 anos. Também longevo, Nelson, aos 93, ainda passeia espigado pelas manhãs euclidenses.

Em frente ao Night Club, Zé de Zezito, morto precocemente em um acidente de automóvel.

Mas não era só o Hotel Lua que fazia a minha conexão com o mundo. Zezito, também! Com seu automóvel, seu serviço de alto-falantes e seu “Night Club”. Isso mesmo, além do Café Society, ele era dono de um legítimo Night Club em Euclides da Cunha nos anos 60, carinhosamente chamado de “Naiti”. Para completar, fundou o cinema que, em seguida, venderia para Jonas Abreu.

Cine Maria da Graça, o cinema de Jonas.

Jonas Abreu viveu e morreu para o cinema, para a família e para os amigos, não necessariamente nessa ordem. Foi no cinema dele, que assisti a um clássico do cinema mundial, Hiroshima Mon Amour, do cineasta Francês Alain Resnais. Era na casa dele que todos íamos, às tardes de domingo, ouvir, na moderníssima radiola Zilomag, o som de Miguel Aceves Mejia, Bienvenido Granda e os sucessos do momento com a turma da Jovem Guarda

 

 

 

Certo dia, meu amigo Herder Mendonça convidou-me para, na sua casa de espetáculos, o saudoso Rock In Rio-Salvador, assistir a um show de Wanderléa, a musa da Jovem Guarda. Aos 60 anos, exuberante e superprofissional, ela adentrou ao palco para se apresentar a uma plateia de uma centena de pessoas. Por um erro estratégico qualquer, a menor em toda a história da casa. Mesmo assim, cantou como se estivesse se apresentando num estádio lotado. No meio do show, deslocou-se do palco, veio até onde eu estava, tomou-me as mãos e cantamos juntos “Uma vez você falou, que era meu o teu amor…” (trecho da canção Ternura, de Roberto e Erasmo Carlos). Digo cantamos, mas não foi bem isso. Ela cantava e eu chorava lágrimas dedicadas àquelas tardes de domingo que Jonas nos proporcionava.

 

                                                                                                                                                 

                                                                                  Por Celso Mathias

Riva: charme e glamour

 

Mais do que simples embarcações, confortáveis e bem-acabadas, os Riva tornaram-se um símbolo do design e da elegância italiana, baseado no que na época havia de melhor em materiais de construção naval: madeiras de mogno da Costa do Marfim, Gabão e Honduras, motores norte-americanos da Chris-Craft, manômetros de longa durabilidade e vernizes das melhores misturas, é claro! Se lhe perguntarem quais são os melhores do mundo, a resposta só pode ser Riva.

 

O barco das celebridades de todos os tempos. Ter um Riva era um sinal inequívoco de distinção e bom gosto, não espantando, por isso, que o príncipe Rainier de Mônaco se orgulhasse do seu “Les Rochers”, Brigitte Bardot do “Drácula”, Marcello Mastroianni e Shopia Loren do “pomentino”, Porfírio Rubirosa do “L’Abromzato” e a família real da Arábia Saudita do “Crude”.

 

Mais do que simples embarcações, confortáveis e bem-acabadas, os Riva tornaram-se um símbolo do design e da elegância italiana, baseado no que na época havia de melhor em materiais de construção naval: madeiras de mogno da Costa do Marfim, Gabão e Honduras, motores norte-americanos da Chris-Craft, manômetros de longa durabilidade e vernizes das melhores misturas, é claro! Se lhe perguntarem quais são os melhores do mundo, a resposta só pode ser Riva, o barco das celebridades de todos os tempos.

Os anos sessenta marcaram o período áureo dos Riva. De Monte Carlo a Portofino, passando por Saint Tropez e outras estâncias da Riviera ou Côte d’Azur, a elegância passeava nos mais variados modelos. Ter um Riva era um sinal inequívoco de distinção e bom gosto, não espantando, por isso, que o príncipe Rainier de Mônaco se orgulhasse do seu “Les Rochers”, Brigitte Bardot do “Drácula”, Marcello Mastroianni e Shopia Loren do “pomentino”, Porfírio Rubirosa do “L’Abromzato” e a família real da Arábia Saudita do “Crude”.

A esta lista dos mais famosos proprietários Riva podemos ainda a acrescentar Dino de Laurentis, Lamborghini, Jean-Paul Belmondo, Liz Taylor, Kirk Douglas (na foto com a jovem Brigitte), Richard Burton, Sean Connery, Peter Sellers, o xá da Pérsia, o rei Hussen da Jordânia e, mais recentemente, a família Pitangui com um modelo júnior, batizado de “Plástica”.

A fama dos Riva confunde-se com o próprio percurso de Carlo Riva, que, com pouco mais de 14 anos, já seguia atentamente o trabalho de seu pai Serafino, na Cantieri Riva, o modesto estaleiro da família. Aí, começou desenhando modelos de pequenos barcos de corrida, sendo o “Brun-Ella” o mais bem-sucedido em competições oficiais.

 

Quatro anos mais tarde, num conceito estético e técnico mais ambicioso do que aquele que caracterizava o trabalho do pai, desenhou o seu primeiro modelo de dois motores. Mais do que apresentar um barco moderno, começava a revelar-se uma evidente diferença de gerações entre pai e filho, fato que trouxe para a relação entre os dois uma tensão quase permanente.

Serafino apreciava silenciosamente o trabalho de Carlo, mas sempre se mostrou relutante em aceitar os seus planos. Por seu lado, pleno da juventude, apoiado nos conhecimentos adquiridos no Instituto Técnico Industrial de Cremona, e fascinado pelos barcos da americana Chris Craft, Carlo Riva queria mais. Desejava produzir em escala industrial barcos de excelente qualidade e revolucionar um estaleiro familiar sem grandes objetivos e que vivia apenas de entusiasmo e carolice.

 

Determinado, Carlos Riva conseguiu um reconhecimento do famoso criador das armas Beretta, que lhe encomendou um barco com pagamento adiantado. Mais do que uma nova embarcação para caça aos patos no lago de Como, Beretta quis perceber se este pequeno investimento funcionaria como semente de um novo negócio. Porém, o interesse de Beretta não demoveu o seu pai, que se manteve irredutível na sua desconfiança. As relações entre os dois entram então no período mais delicado e, numa noite de janeiro de 1950, Carlo acabou por fazer um ultimato: ou o pai o deixava desenvolver a sua estratégia ou nunca mais contaria com ele. Sem escolha, Serafino cedeu e acordou com Carlo um período de três anos, ao fim do qual teria de estar perfeitamente convencido de que o negócio ia de vento em popa. Caso contrário, teria de devolver-lhe tudo e desistir para sempre dos seus planos. A combinação consumou-se e foi mesmo formalizada no notário. Carlo não só cumpriu os termos do acordo, como lançou mão do planejamento e construção de um novo estaleiro numa zona mais a sul do lago Iseo. A nova Cantieri foi inaugurada com pompa e circunstância pelo presidente da Câmara de Sarnico, em outubro de 1954, e ao fim de quatro anos o nome Riva começou a ser conhecido.

Mas, para poder oferecer ao mercado barcos de alta qualidade, Carlos Riva sabia que havia problemas a ultrapassar. Um deles era a confiabilidade dos motores italianos, cujo desempenho em competição não tinha paralelos em barcos de passeio. Como sabia bem que eram os americanos da Chris-Craft que produziam motores dessa qualidade, rapidamente preparou uma viagem aos EUA, onde tentou obter o exclusivo da marca. Em 1952, na companhia de um tradutor da embaixada italiana, visitou Roy Clark, o diretor de vendas da Chris-Craft na sede da empresa garantindo a exclusividade dos seus motores para a Europa.

 

Com a melhor motorização, Carlo Riva rapidamente projetou a fama dos seus barcos além das margens do lago que o viu nascer. Primeiro, lançou o Scoliattolo, depois o Corsaro – de dois lugares e muito veloz -, Saebino – antigo nome do lago Iseo -, o Ariston, mais tarde o Tritone, o Florida – homenagem ao Estado americano com tradição no sky náutico – Junior, Olimpic e o famosíssimo Aquarama. Começavam, então, os anos dourados dos Riva.

Na crista da onda, Carlo não perdeu tempo e tudo fez para internacionalizar a sua marca. Às feiras de Milão e ao centro de exposições em Roma, sucedeu-se a abertura, em 1964, de um “show-room” em Nova York, mais propriamente no Rockefeller Center, em plena Quinta Avenida. Diante deste estava o famoso clube “21”, na época passagem obrigatória de centenas de celebridades, que passavam as suas noites no coração de Manhattan. Em poucas semanas, os Riva deram-se a conhecer os mais endinheirados compradores e as encomendas dispararam. Independentemente das suas fortunas, Carlo Riva aproveitou para instituir o princípio de que todos os clientes merecem igual atenção, que nenhum barco seria entregue sem o seu pronto pagamento. Como o próprio recorda, “muitas vezes não era fácil dizer a um rei que não poderia tocar no seu barco até o pagamento estar concluído! ”

Na fábrica, a partir do seu escritório panorâmico, Carlo Riva acompanhava ao pormenor todos os passos da linha de montagem. A cada trabalhador, nos seus trajes de trabalho, assim como às ferramentas, depósitos de madeira e de ferragens atribuiu uma cor, o que lhe permitia perceber se alguma “peça” deste “puzzle” estava fora do lugar e se havia algum problema.

O mesmo rigor era aplicado aos fornecedores de componentes. Entre as várias histórias que Carlo Riva ainda hoje confirma, conta-se a do seu cliente Fritzz Lizenhof, o presidente da germânica VDO que produzia instrumentos de navegação para automóveis e aviões. Lizenhof, que comprava Rivas como quem muda de camisa, propôs que fosse a sua fábrica a fornecer os manômetros para os Riva. Carlo Riva torceu o nariz, explicou-lhe que o mar e água salgada eram terríveis adversários e que não o queria perder como cliente. O presidente da VDO insistiu e nos meses seguintes os seus engenheiros fizeram inúmeros testes, mas os instrumentos mostravam-se frágeis. Então, ficou célebre o dia em que Carlo Riva pegou um martelo e, qual controle de qualidade, diante dos técnicos alemães, desfez os instrumentos da VDO em pedaços! Fritz Lizenhof não desanimou e, ao fim de dois anos, os manômetros da sua marca conseguiram resistir ao martelo Riva. Formalmente, em 1964, foram aprovados os protótipos que viriam a equipar os barcos de Sarnico. Na época, Carlo Riva justificava-se: “sejam reis ou industriais, todos os meus clientes são importantes e os meus barcos tem de ser perfeitos. Tudo quanto não seja a perfeição arruinará o meu nome”. Para sublinhar o seu cuidado, comprometia-se a compensar os futuros proprietários em cem dólares por cada dia de atraso na entrega, multa que nunca teve de pagar.

Projeto atual em parceria com a Ferrari

Dobrada a década de sessenta, começou a ganhar forma um dos derradeiros desafios de Carlo Riva: a construção de barcos em fibra. Gerard Kouwenhoven, amigo da família e responsável pelos negócios nos EUA, alertou-o para a autêntica revolução que estava varrendo os construtores norte-americanos. Em poucos anos, os catálogos destas marcas passaram a apresentar exclusivamente modelos em fibra de vidro, alteração que agradava aos novos clientes, pois estes barcos exigiam custos de manutenção mais baixos. Gerard aconselhou Carlo Riva a preparar-se para estes ventos de mudança que, em breve, chegariam à Europa.

A “difícil” decisão foi tomada e os primeiros Riva com peças em fibra ganharam forma em 1969. Esta novidade acabou por gerar polêmica e Guido Prina, o mais bem-sucedido distribuidor de barcos da Itália, referiu-se a Carlo Riva como um “tolo”, afirmando que “a fibra nunca seria bem aceita no país”. Em Genova, na maior feira náutica transalpina, Carlo foi recebido como um traidor do seu próprio negócio. O tempo encarregou-se de mostrar a todos que era o único que estava certo…

A nova forma de construir barcos de recreio, aliada à excitação sindical que desestabilizou a Itália dos anos sessenta, acabou por desgastar Carlo Riva. Paralelamente, iam-se sucedendo as propostas para parcerias ou mesmo de aquisição do Cantieri Riva por parte das marcas internacionais, como a própria Chris-Craft, a Brunswick ou a Whitthaker. Depois de vários meses de namoro, aceitou negociar com a Whitthaker, com quem se comprometeu a manter-se à frente do negócio durante dois anos, para poder acompanhar a total reconversão dos barcos para a fibra. Gerard Kouwenhoven esteve presente nestas negociações, que tiveram lugar num restaurante em Milão, e recorda que “Carlo ainda hesitou. Disse-me, com lágrimas nos olhos, que não conseguiriam vender o negócio da família, aquilo a que se havia dedicado de corpo e alma ao longo da vida”. Porém, às quatro da manhã, o negócio foi fechado. Dois anos mais tarde, em 1971, Carlo Riva optou por afastar-se, sugerindo o nome de Gino Gervasoni para seu sucessor. “Senti que ali nada tinha que ver comigo. ”

Longe do seu negócio de sempre, Carlo Riva dedicou-se à construção da primeira marina italiana, situada em Rapallo, bem perto de Portofino, e que foi batizada com o seu nome. Ao mesmo tempo desenvolveu clínicas de restauração especializadas nos barcos que produziu ao longo de décadas. Com o Porto, Carlo Riva pôde cumprir um sonho antigo e com estaleiros de recuperação de “Rivas” manteve-se junto à grande paixão da sua vida. Carlo Riva deixar à família a herança de, através da restauração, perpetuar no tempo os mais de 3.700 barcos que lançou ao mar. Deixa-lhes, também, o orgulho de ostentarem o sobrenome Riva, que ficará para sempre associado aos mais belos barcos do mundo. A todos deixa-nos um inestimável legado de “glamour”, excelência e bom gosto.

                                                                 Por Celso Mathias

Um juiz

Mas nunca me fugiu da memória a cena daquele juiz apoiado em uma bengala, ereto, a distribuir justiça com serenidade ímpar. Desembargador José Mathias de Almeida Neto, não sei por onde andas. Mas ….

                                                                                                                                                         

Conheci, certa vez, um juiz. Mas bastaria o cargo para definir um ser humano? Não. Diga-se, então, que era daqueles operosos. Mas seria esta qualidade bastante para dizer a que veio? Não. Acrescente-se ter sido magistrado probo. Receberia sua vida, com mais este atributo, um significado final? Não. 

Faltaria algo: um momento supremo conferindo ao seu espírito uma medida de grandeza.

Por um capricho da vida pude testemunhar este momento. Chegou-lhe a velhice. Alcançou-o a doença, com rara agressividade. Sentindo fortes dores, já não conseguia restar sentado – apenas deitado ou de pé.

Eis como este juiz não perdeu uma única sessão do Tribunal de Justiça que integrava: ficava de pé, ao lado do seu assento vazio. As horas se passavam. Seu semblante, carregado de dor. Mas lá estava aquele juiz, impávido, a participar de todos os julgamentos, envergando sua toga com uma dignidade difícil de descrever. Assim foram seus últimos dias. Suas derradeiras horas.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    Desembargador José Mathias de Almeida Neto, uma lição de amor à Justiça.                                                                                                                                                                          

 

 

As décadas se passaram. Mas nunca me fugiu da memória a cena daquele juiz apoiado em uma bengala, ereto, a distribuir justiça com serenidade ímpar. Foi o seu momento supremo – e um dos mais belos que jamais testemunhei.

Vou à janela. Contemplo o meu país tão conflituoso. A minha gente tão dividida. Será que não compreende, como aquele juiz, que as coisas da vida passam, e passam muito depressa?

                                                                                             Seus pares o homenagearam dando o seu nome ao Fórum Criminal de Vitória

Lanço um olhar às instituições, tão ricas em títulos e símbolos. E tão distantes do carinho de todo um povo. Uma pena que não percebam, como aquele juiz, que cargos não fazem homens – e sim o inverso.

 

Vejo o desânimo a grassar. Que diferença podemos fazer, afinal? A nos responder a imagem frágil daquele juiz fazendo obstinadamente a sua parte. Cumprindo com o seu dever – mesmo sabendo estar já de partida.

Percebo, finalmente, a falta de fé. Fé nas pessoas. Na virtude. No ideal. Na pureza. Na grandeza. No Brasil, enfim. Talvez nos falte, em verdade, enquanto maioria silenciosa de pessoas de bem e do bem, a firmeza que aquele juiz tão bem representa.

Desembargador José Mathias de Almeida Neto, não sei por onde andas. Mas sei o que estás a fazer: muita falta neste nosso Brasil.

                                                            Por Pedro Valls Feu Rosa

Pedro Valls Feu Rosa, além de um vastíssimo currículo que não cabe aqui, em 1990, aos 23 anos, assumiu por Concurso Público, o cargo de Juiz de Direito da Comarca de Muqui/ES. Em 1992 foi promovido a Juiz de Direito da Comarca da Capital. Em 1994, aos 27 anos, foi eleito Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil.

 

NDR-Pedro Valls Feu Rosa ocupa no Tribunal de Justiça do Espírito Santo, a vaga aberta com a morte aos 64 anos, do Desembargador José Mathias de Almeida Neto, que costumava se referir ao então jovem juiz Pedro Valls Feu Rosa, como o futuro da Magistratura do Brasil.

 

A elegância do gesto

 

 

Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância. Ela é um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza. É mais do que um fraque e uma cartola! É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto…

 

 

…. É uma elegância desobrigada. É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam.

Elegância é dar passagem a pé ou em qualquer veículo, àqueles que precisam passar.

A elegância está nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das maldades ampliadas no boca a boca.

É possível detectá-las nas pessoas que não usam um tom superior de voz.

 

Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros.

É possível detectá-la em quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.

 

É elegante estender a mão, cumprir horários, dar bom dia, boa trade, Boa noite, até amanhã, um abraço, respeitar as leis de trânsito, não estacionar nos acessos e nem nos espaços destinados a pessoas com necessidades especiais, em frente garagens.

 

É elegante respeitar as filas e ceder o lugar àqueles ou àquelas que têm privilégios legalmente garantidos. É elegante respeitar a lei!

 

É elegante respeitar a lei do silêncio!

É elegante não ficar espaçoso demais!

É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao de outro. É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.

É elegante retribuir carinho e solidariedade.

Elegância é nem pensar em atirar lixo na rua…

Sobrenome, joias, e nariz empinado não substituem a elegância do gesto.

Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante. Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural através da observação, mas tentar imitá-la é improdutivo. Educação enferruja por falta de uso.

Elegante é admirar a nobreza e a ética repudiando àqueles que cultivam a “Lei de Gerson”.

“Lembre-se de que colheremos infalivelmente aquilo que semearmos. Se estamos sofrendo, é porque estamos colhendo os frutos amargos das sementeiras errôneas. Fique alerta quanto ao momento presente. Plante apenas sementes de sinceridade e de amor, para colher amanhã os frutos doces da alegria e da felicidade. Cada um colhe, exatamente, aquilo que plantou.”

Elegância é estender sempre a mão ao cumprimento, aos desamparados.

É não ter curiosidade sobre a vida pessoal e os negócios dos seus semelhantes.

Elegante é não ter inveja!

Elegância é principalmente respeitar. Aos mais velhos, aos mais jovens, aos compromissos e especialmente a si mesmo!

Essas regaras caem bem em qualquer lugar do planeta!

 

                                                                     Autor: Celso Mathias

As noites no Bar do Alemão

Outro dia fazendo uma pesquisa no Google, encontrei imagens do Bar do Alemão, “botequim” ao lado do Estádio do Palmeiras, que quando frequentei, no início dos anos 70, já contava com mais de uma dezena de anos e várias dezenas de fiéis frequentadores. Recém-chegado da Bahia, eu ensaiava os primeiros passos como executivo de uma multinacional do ramo de oxigênio e, por morar aí perto, na Vila Romana, fiz do lugar o meu ponto de todas as noites para ouvir boa música, beber chope bem tirado, comer petiscos gostosos, rir e conversar. Conversar sabe com quem? Gonzaguinha, Tom Zé, Dominguinhos, Paulo Cesar Pinheiro, Arrigo Barnabé, Roberto Riberti, Paulo Vanzolini, Eduardo Gudim, Carlinhos Vergueiro e sabe mais quem?

EDIÇÃO ORIGINAL DE 16 DE SETEMBRO DE 2019. REEDITADO PARA O NOVO FORMATO DA REVISTA VIDABRASIL

E passeando pela internet, fui reencontrando grandes personagens que frequentaram o bendito lugar e outros que ainda hoje frequentam, como o cantor e compositor Eduardo Gudim, atualmente, o dono da casa, que à época, adentrava o lugar, carregando seu charme e sucessos dos festivais, ao lado do parceiraço, Paulo César Pinheiro, que além de bom compositor, era o marido da Clara Nunes.

Por lá passeava também, meu amigo de adolescência, Vicente Barreto, um serrinhense que frequentou Euclides da Cunha nos anos 60, acompanhado do pai, Moreira, um corretor de valores que namorava uma senhora no povoado de Pinhões. Vicente, já famoso naquela época, é hoje um compositor consagrado em parcerias, entre outras, com Viniciusde Moraes e Alceu Valença, com quem divide o sucesso de Morena tropicana. Vicente me conduzia entre os famosos e, através dele, bebi várias caipirinhas com Gonzaguinha em longas conversas madrugada a dentro. Com Anastácia e Dominguinhos, bebi várias doses de cachaça pura, ocorrência repetida anos depois quando encontrei o querido músico calçado em chinelos de borracha, passeando pelas ruas de Vitória,

Com Tom Zé, o encontro no Bar do alemão, foi amor à primeira vista. Meu ídolo nos tempos que morei na pensão de D. Margarida, em Salvador e ele já comandara a Tropicália, naquela época, repousava sua criatividade na calma do seu apartamento nas Perdizes onde vive até hoje, criando, cultivando flores nos jardins do condomínio e em casa, a sua doce Neusa. Lá se vão 40 anos de convivência, mesmo distante, com o genial músico baiano. Na última vez que assisti um show dele, no Teatro do Sesc em Salvador, ao me identificar na primeira fila, interrompeu o espetáculo para me deixar corado com uma inesquecível homenagem. Vida longa ao Tom!

E o magrelo Serginho Leite, músico e humorista brilhante. Criador do personagem Agnaldo Peixoto, mistura de Cauby com Timóteo. Serginho que se foi tão cedo, já era muito engraçado, mas ainda não era humorista. Era um disputadíssimo instrumentista e componente da banda de Tom Zé. Muitas vezes, fomos o motor de arranque do Dodge Dart vermelho que ele pilotava.

 

 

Dia 10 de julho de 1973, deu uma canja na casa, um vizinho ilustre que morava noedifício ao lado. Nada mais nada menos do que o grande Agostinho dos Santos que comemorava a temporada que faria em Paris e seria iniciada naquela semana. Agostinho morreu no dia seguinte, no voo da Varig que caiu ao chegar no Aeroporto de Orly.

 

 

Além de músicos como Pulo Vanzolini, Odair Cabeça de Poeta, Helton Medeiros, ele mesmo, o grande sambista carioca que morreu esta semana, Arrigo Barnabé, Carlinhos Vergueiro, Roberto Riberti (parceiro de Gudim), o produtor Pelão, Edgard Gianullo, humorista e ator de sucesso em comerciais de TV, brilhante violonista até hoje em atividade, havia também o impressionante time da casa. Dagoberto, o dono, caixa e instrumentista. Nelsinho e sua bela mulher, sempre presente, era uma espécie de sócio e virtuoso cavaquinhista. Completava o time, Sinval, garçom baiano sempre disponível para uma piada e para uma chorada no chope.

 

Raimundo Monte Santo, o Raimundinho, que viveu grande parte da sua infância e adolescência em Euclides da Cunha e chegou a fazer sucesso em um festival com a Música América Neblina, também pontou na casa, mas esse, levado por mim. Não o via há alguns anos. Nos encontramos na noite Paulista e fomos parar no Bar do Alemão. Penso que foi naquela madrugada, depois que nos despedimos, que ele morreu em um trágico acidente na Avenida Paulista em frente ao MAM.

 

Fechando as memórias da noite, um espaço especial para um cidadão de Araras, um jovem médico conhecido pelas iniciais LACO, Luiz Alberto Chaves de Oliveira. Marcante por ser simpático, querido por todos e por andar sempre acompanhado de uma bela irmã, se não me engano, Regina. Nessa pesquisa de internet, encontro a brilhante trajetória do médico Laco, tendo ocupado importantes posições na saúde pública de São Paulo, atualmente aposentado e vivendo ao lado da mulher amada, em uma praia no interior de Alagoas. Vida longa a todos nós que ainda estamos aqui!

                                                             Por Celso Mathias

Amor que mata – Violência entre casais – principalmente contra a mulher

 

A Violência enquanto as pessoas estão casadas é tema, infelizmente, bastante conhecido. Ultimamente, entretanto, estudos mostram que a violência começa mesmo é no namoro. É preciso mostrar urgentemente aos adolescentes que gostar de alguém não dá direito a qualquer tipo de agressão ou constrangimento. Becky completou 17 anos, é inteligente, divertida e pretende ser profissional do humor.

Ao conhecer Kip, atraente, apaixonado, e preocupado com cada detalhe da sua vida, descobriu aos poucos que aquilo que parecia ser uma deliciosa paixão, transformara-se em angustia e prisão: Ele controla todos os passos da garota, interfere em seu relacionamento com amigos, persegue-a, terminando por agredi-la fisicamente. Nesse ponto, Becky toma consciência de que a paixão pode não ser exatamente aquilo que pensava. Entretanto, o caminho para se libertar de um namorado possessivo é mais complicado do que o que ela imaginava – aliás, muito parecido com o de libertar-se de um vício. A ajuda da família e dos amigos vai ser imprescindível…

Impressionada coma quantidade de casos de violência entre namorados adolescentes, a jornalista americana Janet Tashjian resolveu chamar a atenção dos seus leitores e escreveu o livro ‘Amor no fio da navalha’. O livro conta uma história que pode acontecer com milhares de adolescentes de qualquer quadrante do planeta

“Se tem ciúmes, é porque gosta de mim” A pesquisadora Carla Martins costumou-se a ouvir esse injustificável chavão. “O que acontece é que os adolescentes, embora reprovem a violência abstrata, depois encontram justificativas e desculpam a violência em situações específicas, como os ciúmes ou a infidelidade”, explica. Por violência não se entende apenas murros e pontapés. “A violência mais comum é a emocional (insultos, humilhações, ameaças, tentativas de controle) e a pequena violência física (bofetadas, empurrões)”, observa Carla.

Apesar do progresso no que diz respeito a condição feminina, as mulheres ainda são educadas para idealizar o amor. No entanto, uma das grandes diferenças entre a violência nas relações adultas e nos adolescentes é que as mais jovens também são agressivas nas suas relações amorosas. “Mas é verdade que as mulheres parecem sofrer mais a influência de um certo discurso sobre o amor e o romanceado, aquele que acredita que o ‘verdadeiro amor’ sobrevive a tudo, inclusive a agressões físicas e psicológicas. São as que acreditam que o amor é capaz de mudar tudo”, alfineta Carla.

Os grandes problemas são culturais: por exemplo, o namoro valoriza as mulheres. “Continua uma forma de afirmação social”, confirma a educadora Maria Leitão. “No curso secundário, tentamos mostrar-lhes que não precisam ter um namorado para se sentirem valorizadas. Mas é uma tarefa difícil. Elas preferem o Antes mal acompanhada do que só. Aprender a resolver um conflito de modo não-agressivo, como respeitar os direitos dos outros, como declarar uma situação que não os satisfaz, são aprendizagens que desenvolvemos com os estudantes para eles perceberem que há outras formas de nos relacionarmos que não sejam violentas. E também como forma de prevenção: para que, quando arranjem um namorado, não permitam que essas situações aconteçam. ”

 

Como afirma Janet Tashjian, autora de Becky: “Na nossa cultura, rapazes e moças nadam contra a fortíssima corrente da violência. As moças carregam frequentemente o fardo da raiva e da frustração dos rapazes. Ajudar ambos os lados a encontrar uma solução significa eliminar a raiz da violência na nossa sociedade. Temos muito trabalho à frente.

 

“Os homens também são vítimas desse tipo de ocorrência, e estas não são relações dentro das quais eles se sintam bem”, defende a professora Maria Leitão. “Socialmente, são obrigados a desempenhar um papel que não os satisfaz, mas

 não têm outro! Eles comportam-se da maneira que acham que lhes é exigida. Tentamos mostrar aos rapazes que, para serem homens, não precisam ser violentos. E ao recusar a violência, serão mais felizes. O problema é que mesmo algumas mulheres esperam deles a violência como afirmação. É fundamental apresentar novos modelos de masculinidade aos jovens, ou eles continuarão achando que não ser violento é ser homossexual. E no contexto de homofobia da sociedade, eles preferem tudo menos ser homossexual! ”

“Devemos, antes de mais nada, transmitir muito claramente, no nosso discurso e comportamento, que a violência é inaceitável, em qualquer circunstância e qualquer que seja a desculpa. Podemos educar os filhos para que sejam assertivos e não agressivos. Podemos enfatizar a ideia de que o respeito faz parte integrante do amor. E que o amor não implica anulação nem fusão com o outro. Os pais têm de perceber que os filhos não são deles, são do mundo”. Encerra Carla.

Autor: Celso Mathias

Ático: de Monte Santo para os mais elegantes salões de São Paulo

Conheci Seo Ático nos 80, quando, ao lado do meu saudoso tio José Mathias, nos hospedávamos no Ca’d’Oro, sempre que íamos a São Paulo. Naquela época, eu ainda não tinha noção da dimensão, daquele pequeno e gentil ser, muito menos, da origem dele. Anos depois, ao receber para jantar no Fasano, algumas amigas euclidenses, entre elas, a querida Nicinha Abreu, fomos servidos por aquele senhor tão simpático que nos servira no Ca’d’Oro. Aí sim, descobri de quem se tratava e que nascera na vizinha Monte Santo. No final da noite, cozinha fechada e tendo à nossa mesa a honrosa companhia do grande Sommelier Manoel Beato, ficamos sabendo de inúmeras histórias de Ático Alves de Souza. Ele nos deixou em 17 de janeiro último, aos 95 anos, já como lenda na sua área de atuação.

                                                                                                                                   Celso Mathias

 

 

 

O texto de Sibele Oliveira, conta com muita emoção, um pouco da trajetória desse ilustre montessantense!

Ático Alves de Souza ficou parado no caixa do restaurante Parigi, enquanto a filha contava para uma funcionária da casa que tinha surgido uma vaga para ele numa casa de repouso, no bairro do Morumbi. Tido pelos colegas como um grande contador de histórias, naquele momento o maître economizou nas palavras. Nem seu rosto, cujas linhas bem marcadas revelavam a carreira longeva, entregou o que ele estava sentindo no último dia de trabalho, depois de 70 anos na ativa. A ficha dele não tinha caído….

Naquela quarta-feira, no final de 2019, Ático tinha trabalhado normalmente. Serviu os clientes, alguns deles amigos de longa data que conhecia desde que eram crianças. “Se não repetir, é porque não gostou”, brincava, como era de costume. Durante a conversa entre a filha e a funcionária, ele já não vestia o smoking de todos os dias para empurrar o carrinho de prata com o qual transportava o bollito misto — cozido italiano de carnes, legumes, molho e raiz-forte — de mesa em mesa. Em vez do traje clássico, usava um suéter cinza igualmente alinhado. Foi com a costumeira elegância que seu Ático, como era conhecido pelos clientes, saiu do restaurante pela última vez. A decisão não partiu dele, mas dos filhos, preocupados com as falhas de memória do pai. Se dependesse do maître, continuaria mais tempo no salão servindo o bollito e distribuindo cumprimentos, simpatia, sorrisos e conversas aos clientes.

Amava tanto o ofício que adiou a aposentadoria várias vezes. Apesar de ter 92 anos, achava que era cedo para parar de trabalhar. Dava expediente às quartas e domingos. Chegava ao restaurante por volta das 11h30 e ia embora às 15h. Pegava um ônibus de Guarulhos, onde morava, até o Tucuruvi, na zona norte de São Paulo, e outro até a av. Brigadeiro Faria Lima. Só deixou de ir ao restaurante sozinho quando vieram os esquecimentos. Passou então a ir ao trabalho com um dos filhos.

Os funcionários foram pegos de surpresa com a notícia, embora soubessem que esse dia não demoraria a chegar, já que nos últimos tempos Ático andava se esquecendo das coisas.


Eric Berland (à esq), e Ático Alves de Souza, em seu último dia de trabalho, no final de 2019 Imagem: Eric Berland/Arquivo Pessoal.

 

“Ele era maravilhoso comigo. Quase um pai brasileiro, já que sou francês”, lembra Eric Berland, 58, chef do Parigi, que trabalhou com ele por 21 anos. Ático gostava de

contar histórias do passado, do dia a dia com a adorada esposa Dolores e com os filhos. Também era um ouvinte habilidoso e extremamente gentil. Por isso, os colegas se emocionaram tanto com a saída dele.

 

 

 

 

 

 

 

Começo difícilNascido em Monte Santo, no interior da Bahia, Ático passou por maus bocados. Aos oito anos, já trabalhava na roça. Passava o dia inteiro com o cabo da enxada na mão e vira e mexe via cangaceiros sertão adentro. Quando cresceu, tentou ganhar a vida plantando feijão, mas o sol não colaborou e a colheita ficou muito aquém de suas expectativas. Descontente, decidiu abandonar a terra natal. Foi de pau de arara até Minas Gerais, pegou carona num caminhão até o Rio de Janeiro e depois um ônibus para São Paulo.

Chegando à capital, em 1949, conseguiu um emprego de faxineiro numa casa noturna que também tinha restaurante, no centro da cidade. Também trabalhou no escritório da Confeitaria Fasano, mas logo passou para os salões de três restaurantes tradicionais de São Paulo. Primeiro abraçou a chance dada por Fabrizio Guzzoni, proprietário do Ca’d’Oro. Começou de baixo, como cumim, mas em pouco tempo ascendeu ao cargo de maître. Por lá ficou 37 anos.

Saiu para voltar ao grupo Fasano. Depois de nove anos no restaurante principal, permaneceu os últimos 21 no Parigi. Dono de uma carreira bem-sucedida, serviu vários presidentes brasileiros. Entre eles Getúlio Vargas, que descrevia como um homem sério, mas não aborrecido. Em suas palavras, João Figueiredo era o mais brincalhão de todos. “Só não atendi mesmo o Lula como presidente. Ele eu atendi como deputado federal”, contou em uma entrevista no YouTube. Além de políticos, perdeu a conta de quantos artistas e personalidades conheceu no exercício da profissão.

Tinha orgulho de atender tanta gente importante, mesmo sendo semianalfabeto. “Minha vida é um romance”, dizia, referindo-se à trajetória de menino pobre a um dos maîtres mais conhecidos de São Paulo. Nunca deixou de ser um homem simples, que tinha os clientes como professores. Com eles aprendeu a falar, a calar-se e a se aproximar de uma mesa na hora certa.

A educação, uma das marcas de Ático, ele aprendeu com a mãe, mulher humilde que teve 18 filhos e criou 12. Seu jeito agradava às pessoas de todas as idades. Tanto que muitas frequentavam o Parigi só por causa dele. Gabava-se de, em 67 anos nos salões dos restaurantes, nunca ter recebido uma queixa de um cliente. Fez por merecer a aprovação. Jamais se queixou de passar horas a fio em pé, correndo de um lado a outro para dar conta de atender com perfeição.

Reconhecimento até o fim Embora nunca tenha comandado uma cozinha, esse era um talento não explorado de Ático. Uma vez, quando ainda trabalhava no Ca’d’Oro, recebeu um pedido inusitado do amigo Geraldo de F. Forbes: fazer pastéis de arroz, carne e feijão. Mesmo tão afeito a regras, decidiu infringi-las. Preparou os salgados e, de quebra, fritou bananas de sobremesa. Sentindo o aroma de longe, os clientes também quiseram e, a partir daquele dia, a nova opção foi incluída no cardápio. Fez tanto sucesso que foi imitado por outros restaurantes.

Parte do mérito do bollito do Parigi, um chamariz de público, era de Ático. Os anos deram a ele experiência e uma precisão cada vez maior na hora de cortar e compor o prato. Exigente que era, sempre achava que podia se aperfeiçoar mais, apesar de seu trabalho beirar a perfeição. E o reconhecimento sempre vinha, de um jeito ou de outro. Décadas atrás, o serviço irretocável rendeu a ele a Comenda da Ordem do Trabalho, outorgada pelo ex-ministro do Trabalho Almir Pazzianotto.

 


Ático Alves de Souza, em seu último dia de trabalho, ao lado de Sebastião Brito, carregador de pratos Imagem: Eric Berland/Arquivo Pessoal.

Nos últimos anos, a mão de Ático foi perdendo a firmeza. Seu cansaço também era evidente. Mas ele amava tanto estar entre os clientes que evitava pensar que não tinha mais condições de prosseguir no salão. Coube a Odair Brito, o garçom que trabalhava com ele, assumir a tarefa de cortar o bollito.

O maître ainda ficou mais um tempo, até que seus filhos se viram forçados a tomar a decisão por ele. Após o derradeiro dia de trabalho do veterano, Odair ficou responsável pelo serviço, até hoje oferecido no Parigi.

Ático não estava deixando apenas a profissão para trás. Também começou uma vida nova na casa de repouso, ao lado de Dolores. Muito querido pelos antigos colegas de trabalho, recebeu a visita de alguns nos dois últimos anos. “Tenho vontade de voltar a trabalhar”, certa vez confessou a Bruno Ribeiro Moreira, 37, ex-gerente do Parigi. Valdemir Melo, 54, maître do restaurante e enfermeiro, foi outro que continuou visitando o amigo e levando presentes, inclusive os que os clientes deixavam no restaurante para ele.

 

 

Em julho de 2021, Valdemir levou à casa de repouso a encenação de Lampião e Maria Bonita, interpretando o papel-título. Vendo a história familiar, o senhor de 95 anos chorou durante a peça inteira. Antes do Natal, quando recebeu uma nova visita do amigo, Ático repetiu: “Quero sair daqui para trabalhar”. Em janeiro escorregou, quebrou o fêmur e foi submetido a uma cirurgia. Voltou para casa para se recuperar. Dias depois, já na casa de repouso, sofreu um mal súbito à noite e faleceu. Deixa mulher, dois filhos e netos.

 

                                                                                                            Por Sibele Oliveira