Au revoir Bernard!

Bernard e Zenaide no River Side

 

 

Tempos depois, num festival de comida francesa no River Side, ali na Estrada do Coco, conheci o tal francês que fundara o Chez Bernard. Que cara simples! Legal, um baiano mesmo desses que a gente encontra num botequim e engata um papo inteligente. E o Bernard era inteligente e gracioso, mordaz, irônico. Conversa para rolar a noite.

REEDIÇÃO DE TEXTO PUBLICADO EM 13/02/2009

 

 

O ano eu lembro bem, era 1968. Havia na Rua Senador Costa Pinto uma boate chamada Ballroom. Ali Caetano e Gil deram uma canja de despedida e/ou tomaram um porre despedindo-se da Bahia para iniciar o seu autoexílio em Londres. Eu morava em frete, no número 109, hoje parte da área de à época, um pequeno posto de gasolina ainda hoje existente. Meu lar era a pensão de D. Margarida, mãe de Raimunda, tia de Agnelo, de Dadá, de Creusa…com exceção de D. Margarida, todos estão aí, ainda belos, saudáveis e bem-sucedidos.

Na Gamboa, havia já há alguns anos um restaurante de nome pomposo “Chez Bernard”. O que significaria isso? Será que um dia eu ainda poria os pés naquela casa. E os carros estacionados à frente? Nossa! Sequer me lembro dos importados. Lembro muito dos Dodges, dos Landaus e dos Aero Willis. Será que algum dia entraria em um daqueles? Fecha o pano.

Saí da Bahia em 1972 e fiquei fora por exatos 30 anos. Em 2002 quando voltei, já havia realizados muitos sonhos e agora pisava o tapete vermelho do Chez Bernard. Conversando com os garçons fiquei conhecendo um pouco da história da casa e do seu fundador, Bernard Goethals.

Tempos depois, num festival de comida francesa no River Side, ali na Estrada do Coco, conheci o tal

Hotel River Side, hoje transformado em um Centro Para tratamento de COVID

francês que fundara o Chez Bernard. Que cara simples! Legal, um baiano mesmo desses que a gente encontra num botequim e engata um papo

 

inteligente. E o Bernard era inteligente e gracioso, mordaz, irônico. Era conversa para rolar a noite toda.

 

Confessei-lhe que havia morado em Paris num estúdio da Rua Pierre Charron onde estão ícones como o Chateau Frontenac o Pershinghall, e que sou fã de Piaf. Ele, não era tanto e diz que quando criança vivera nos arredores da Charron. Emenda perguntando a minha naturalidade. Respondo, Euclides da Cunha. “Olha, faz tanto tempo que não volto a Paris e já fui tantas vezes a Euclides da Cunha, que é provável que eu conheça mais a sua cidade do que você e, você mais a minha do que eu”.

Como? Indago meio espantado. “Celso, minha mulher, Zenaide teve tios queridos que casaram por lá e lá viveram até a morte. Divina Maia, por exemplo, era tia de minha mulher Zenaide. ” Gelei! Divina Maia Siqueira, mulher de Dominguinhos, mãe de Hidelbrando, nora da professora Erotides e cunhada do legendário Ioiô da professora. Divina fora minha madrinha e uma espécie de mãe adotiva mesmo quando a minha mãe, que morreu muito jovem, ainda era viva. “Dindinha” como eu a chamava, convidava-me para o almoço uma vez por semana. No quintal da casa que ainda está lá intacta, havia uma pequena horta onde se plantavam, tomate, alface, coentro, couve, cenoura e outros legumes que a cidade ainda não adicionara ao seu cardápio. Foi “Dindinha quem me ensinou as noções básicas da boa alimentação.

 

E aí foram tantas histórias de Paris e de Euclides da Cunha… que mal vimos o tempo passar. No final da noite, a pedidos, ensaiamos passos de dança ao som de um flautista belga que entoava La vie en rose.

 

Hoje pela manhã, minha amiga Lúcia Abreu que conhece essa história, enviou-me um e-mail perguntando se eu já tinha notícia da morte do Bernard e do Ângelo Salton, outro ídolo que se foi no mesmo barco do Bernard. Pensei então em homenagear os dois traçando estas mal traçadas linhas e imaginado que nesse momento lá no céu, estão todos se deliciando com o impagável Filet Bernaise ou o Steak au Poivre do Bernard e degustando o espumante Evidence, sabrado e servido pelo Ângelo ao som de La vie en rose.

 

Como disse o Giácomo Mancini em sua crônica 04/05/2006, Longa (eterna) vida ao Chef.

 

Au revoir Bernard!

A cidade morreu

Euclides da Cunha é uma cidade incrustada no sertão da Bahia, a 311Km de Salvador, fundada em 11 de junho de 1898 (123 anos) e emancipada em 19 de setembro de 1933 (88 anos). Nesse período, a cidade teve três administrações marcantes: no Século XX, José Camerino de Abreu e Joaquim da Silva Dantas. No século XXI, Fátima Nunes.

José Camerino, na sua primeira administração, entre 1933 e 1935, provavelmente por influência do padre Renato ou padre Pimenta, traçou o novo mapa urbano da sede, acrescentando à Rua de Cima (hoje Joaquim Lima) à Praça do Barracão (hoje Duque de Caxias e à Rua da Igreja (hoje Praça de Bandeira), as avenidas Oliveira Brito e Almerindo Rehem, além da Rua Otávio Mangabeira, (Rua do Rico). Essas vias como na Idade Média, receberam um beco paralelo, utilizado para entrada dos serviçais, manutenção e retirada de dejetos e lixo. Esse traçado recebeu no centro, os postes para transmissão de energia gerada por motor a Diesel situado em uma extensão da “Praça do Barracão”, chamada Rua da Usina, hoje, Major Antonino.

Joaquim Silva Dantas, assumiu a Prefeitura no período entre 1967 e 1971. Construiu a Praça Duque de Caxias com sua bucólica fonte luminosa, abriu ruas construiu escolas e deu o primeiro grande passo para a modernização da cidade, além de ter sido um administrador duro que utilizou na sua administração, os critérios adquiridos como Auditor Fiscal do Estado, sua profissão original.

 

De 2009 a 2016, o município foi conduzido por Fátima Nunes Soares, que com o apoio do marido, ex-prefeito 

e deputado federal José Nunes, fez a primeira grande revolução na administração do município. Calçou e urbanizou dezenas de povoados, construiu, ampliou e reformou escolas, modificou completamente o perfil urbano da sede, com a construção de diversas praças, asfaltamento de quase todo o centro da cidade, retirou barracas que enfeavam as avenidas, concluiu a obra e fez a cobertura da área externa do Centro de Abastecimento Joaquim Matias de Almeida. Na saúde, construiu do zero, uma grande estrutura com inúmeros imóveis que abrigam dezenas de unidades de saúde. Foi, até agora, a prefeita do Século!

 

Euclides da Cunha, após praticamente dois anos de pandemia, administrados pelos critérios do petista Rui Costa, aliado de primeira hora do prefeito local, lembra muito a cidade nos piores momento de Século XX. A cidade morreu. Isso mesmo! Considerada polo de negócios e dona de um forte comércio, tendo nas suas vias principais, valores de alugueis que ultrapassam os cobrados em grandes centros urbanos, o que se vê hoje, é uma cidade fantasma.

Avenida Ruy Barbosa, a principal da cidade às 15;35h de hoje, segunda-feira, dia 01/11/2021; um deserto

Apesar de não ser um desprivilegio de Euclides da Cunha, alguns agravantes contribuíram para essa situação. O alinhamento da administração municipal com a estadual, cujos objetivos todos conhecem e, especialmente, a retirada de uma grande força do comércio varejista local, que são os 10 mil alunos, mais professores, motoristas, acompanhantes e demais figuras do setor que somam algo como cerca de 12 mil pessoas fora de circulação.

Some-se a isso, a absoluta falta de atuação dos órgãos que representam os interesses do comércio local. Na Avenida Rui Barbosa, de onde foram retiradas com muito sacrifício dezenas de barracas, elas estão voltando a ocupar espaço e, onde nos bons tempos um imóvel comercial não ficava sem inquilino, uma semana sequer, hoje, 09 pontos comerciais estão fechados.

 

Inúmeras lojas fechadas na principal avenida

Para contribuir com essa triste realidade, a administração municipal se dá ao luxo de pagar os salários dos mais de mil funcionários públicos municipais na sexta-feira vésperas de um feriado na terça-feira e estabelecer ponto facultativo na segunda-feira, retirando do movimento comercial, a grande massa do maior empregador da região.

Enquanto isso os 15 vereadores, entre eles, o que fez mais de uma dezena de queixas contra o atual prefeito, no Ministério Público Federal, em Paulo Afonso, aprovaram por unanimidade, um empréstimo de R$15 milhões para obras. Pelo menos em relação ao denunciante, ficou complicado, sustentar as denúncias que fez.

Sem qualquer critério ou fiscalização, as calçadas estão sendo invadidas pondo em risco a segurança do pedestre

A pandemia está sob controle, o comercio local quebrado, os líderes da categoria não defendem os interesses dela, a cidade paralisada, sem estímulos para retomar a normalidade, sequer se fala no retorno às aulas e muito menos sobre como estão sendo administrados os milhões destinados ao transporte escolar, manutenção das escolas e merenda escolar.

Esquina da Avenida Ruy Barbosa com a Avenida Almerindo Rehem. Será que dias piores virão?

Aguardem para breve, a privatização quase total da saúde do Município, defendendo interesses, sabem de quem?

                                                        Por Celso Mathias

Acima de qualquer suspeita

Era para esperar você na esquina de casa. E eu fiz de conta que seria como sempre, mesmo sabendo que não. Há coisas vividas que não eram pra ser. Bem assim com a gente que, sem querer, transou lá em casa naquele dia de chuva. ― Ok, você queria, e eu acabei querendo também. ― Claro que não tem nada de mais transar, mas não tipo eu e você. Qualquer outro estaria ok. Mas você? Não era pra ser, repito desde então pra mim mesma. Não era. Mas agora está feito, e o melhor é fazermos de conta que não aconteceu. Pulamos aquela parte e continuamos bons amigos como sempre.

Você se atrasou. Novidade. Você raramente se atrasa. Entrei no seu carro e seguimos viagem. Como eu previa, ambos tentamos manter nosso modo normal: tudo menos tocar naquele assunto. Até porque nosso encontro envolvia coisas mais sérias. Eu não dei sinal algum do tipo bom te rever. Nem você. Mal nos olhamos. Percebo que nem de longe se toca no assunto que parece morto e enterrado. Fico em silêncio. Procuro ler alguns sinais que eventualmente venham de você. Nada. Isso me angustia. Não quero perder meu amigo, meu companheiro, o cara que não esquece do meu café, que me traz presentes inesperados, porque sempre lembra de alguma coisa da qual eu gosto. Agora esse clima entre nós. E tudo por conta de uma transa.

Estamos na estrada, quietos. Sem música, que você não colocou. Não pintou a alegria comum de nos reencontrarmos a cada poucos dias. Nem o beijo no rosto. Nem o sorriso. Nem os assuntos do dia, a nossa agenda. Sinto a mudança. Viajar com você foi sempre ótimo. Tão divertido que a gente não contava pra ninguém que o trabalho era só desculpa para ouvir Guns ou Pink Floyd bem alto. Especialmente aquele CD que você descolou só pra mim, com Time e os relógios: waiting for someone or something to show you the way. Parar em trechos bonitos das estradas. Procurar a melhor vista. Tirar fotos. Comprar folhagens. E rir da vida, rir dos outros e das coisas que nos acontecem e das que não nos acontecem também. Tirando aquela parte de a gente ter dado uma transada acidental, — acho que foi mesmo um acidente —, sempre fomos alegres companheiros. Receio agora que deixaremos de ser.

Fico teorizando sobre arrependimentos. Que droga aquilo acontecer e estragar o que éramos. Penso na Bíblia. — Que horror! — Mas eu penso, sim, na Bíblia, naquela parte que Adão e Eva se sentem nus, se escondem um do outro e depois ele — só pra variar — culpa Eva pelo pecado de quem comeu quem e, no fim, ficou tudo na conta da cobra e da maçã. Claro que há culpas. Naturalmente que somos eu, a mulher errada, e você, o cara errado, que transaram. Imperdoável. Ainda por cima, segredo, por conta das implicações e das possíveis complicações também. Distraio-me com esses pensamentos e cuido você que dirige quieto. Era previsível que nos estranhássemos. Vamos ao faz de conta que nada aconteceu, mas parecemos culpados e sem graça.

Quilômetros percorridos. Eventualmente, conversas republicanas. Acho que até do tempo falamos antes de ficarmos quietos. Você nem mesmo parecia de bom humor. Eu sem saber direito o que dizer. Reparei que você, sem mais nem menos, saiu para o acostamento da estrada e retornou sem dizer nada. Parou logo adiante em um posto de gasolina. Saiu do carro sem nem mesmo olhar na minha cara. Fiquei no ar. Nem abastecer você abasteceu. Só foi até a loja de conveniência, voltou para o carro e continuou dirigindo como quem retorna. Não lhe perguntei nada. Tirei meu celular da bolsa e me concentrei nas mensagens recebidas e ainda não lidas, enquanto você dirigia em silêncio até parar o carro e me dizer: — Chegamos.

Ergui os olhos e só vi a fachada vermelha de um motel. Olhei para você, e perguntei:

— Como assim?

E você:

— Decidi não te dar chance de me dizer que não.

Pensei que você tinha razão e que talvez eu lhe dissesse que não. Mas só porque era a coisa mais certa a fazer. O portão abriu. Uma decoração um tanto quanto curiosa, mas creio que fazia parte do contexto. Tentei agir naturalmente. Era o quarto 401. Entramos. Você abaixou o portão. Estávamos diante do que deveria ser uma espécie de pagode vermelho e dourado. Subimos dois lances de escadas. Você abriu a porta para eu entrar no quarto. Depois aprovou a cama redonda, montada entre quatro colunas com cortinas que caíam de uma espécie de dossel. Havia espelhos à nossa volta e até no teto havia um, redondo, não muito grande, mas bastante estratégico. De cada canto da cama, correntes e algemas forradas de um tecido bordado que combinava com o verde das cortinas.

Você estava mesmo decidido. Acho que já estava excitado antes de chegar lá e eu não notei nada. O que dizer daquilo tudo? Deixei que você me abraçasse e me beijasse. Ah, você sabe beijar. Faz isso tão bem que beijar você já é quase uma transa. E enquanto nossas bocas simulavam nossos corpos, eu via você se livrar de suas roupas, enquanto procurava, aos poucos, livrar-me das minhas, desta vez, mais devagar, porque você queria me olhar. Eu quis aplacar a força da luz que vinha da janela aberta. Mas você não deixou.  Me senti então como a belle de jour que não gosta de sol, fascinada que sou pela escuridão. Enfim, você concordou em fecharmos ao menos as cortinas. Fico atenta a você, aos seus gestos. Quero interpretar tudo, mas é com o meu corpo que compreendo você. Meu cérebro tropeça nessa linguagem, vinda que sou de homens tão outros, tão diferentes. Há uma vontade que nos acontece a dois, e que contraria tantas coisas, beirando pecados e culpas. Mas, se era chegada a hora de a gente pecar, que fosse então um pecado bem mortal e impenitente. E, visto que era recíproco, eu não iria me proibir de desejar você.

 

Persistia o mistério que havia em nossos encaixes, uma funcionalidade que acontecia sozinha, desta vez mais completa ainda. Eu olhava para você, gravando seus menores detalhes. Deliciava-me em alisar os seus pelos e sentir seus músculos sob a pele lisa e quente. Você tem uma beleza toda sua, que ninguém adivinha e que sequer suspeita. Descobri seus lugares mais sensíveis, que eu acariciava. Não me reconhecia naqueles desejos todos que nem eram meus, em horas de pura inconsequência misturadas ao medo disso tudo terminar em um dramalhão patético. Nesse ponto, só imagino cada uma das figuras que compõem o seu álbum de família e meu sangue frio congela. Seria um julgamento bem ao estilo da velha Inquisição.

 

E pensar que você planejou tudo! Um lado frio seu que eu desconhecia. Tinha até mesmo um lindo e delicado presente surpresa pra mim bem guardado na sua grande e pesada pasta de trabalho. Não duvido que tenha sacado dinheiro na loja de conveniência do posto de gasolina, para não aparecer o pagamento de um motel no seu cartão de crédito. Que sonso você está me saindo…

E que estilo o seu… A ideia de me torturar foi sua. Ah! Você queria me algemar. E ia mesmo fazer isso, não fossem os meus pulsos e tornozelos tão finos que passavam direto pelas algemas. Eu poderia me soltar facilmente das tais amarras, se quisesse. Mas não me soltei. Então, já que você teve a ideia genial de me torturar, por que não o contrário? Sem hesitar, prendi você pelos pulsos e pelos tornozelos, encaixando bem as algemas. Ao contrário de mim, você não conseguiria se soltar sozinho. E eu, literalmente, abusei de você, bem ali, à minha inteira disposição. Mas, como nada é perfeito, o fecho de uma das algemas travou e, por pouco, não tivemos de acionar a portaria do motel para libertar você da torturadora. Bom, tudo isso nos rendeu boas risadas. Talvez nosso bom humor estivesse voltando afinal.

Nossas diferenças são imensas e, por mais que a vida e que as rotinas nos aproximem, tenho para mim que é arriscado demais se deixar levar sei lá por qual fatalidade que nos embaraça e aproxima. Mas sei também que a vida é um risco e um eterno improviso. Criar e recriar instantes roubados às rotinas é um pouco a gente também. E o que for, afinal, é o que será.

Foram bem umas duas horas ou mais de recreio. Não faltou nem você gritar como Tarzan no final, — pronto, contei —, e ser ouvido por todo o motel e até na China, acho eu. Depois de tudo, um bom banho, nos vestimos e voltamos ao normal, às velhas rotinas e às coisas de sempre, que afetam pessoas comuns e comedidas, acima de qualquer suspeita. E quem nos vê juntos, sérios e respeitáveis, embora divertidos, bem compenetrados em nossas tarefas, com certeza, quem nos vê juntos jamais pensaria em algemas, nem em camas redondas, nem em chineses, nem — francamente — no Tarzan.

                                                                                                           Por Beatriz Basto

Princesa, guerreiro, feras, glória e vitórias

Heloisa completou na data de ontem, 13/10, seu quarto aninho. Edmilson Carvalho, presidente ACACEC festejou seus 74 anos recebendo parentes e amigos na aprazível chácara em frente ao Clube do 100. Depois de um grande susto, a querida amiga Anatalia Riley volta a apreciar as borbulhas da Veuve Cliquot. No próximo dei 07 de novembro, o Estado de Pituaçu recebe um jogo beneficente entre os times de dois euclidenses, o prestigiado fisioterapeuta Lucas Paim e o fazendeiro Rubinho. O que Marilyn Monroe, Jay-Z e Nick Jonas têm em comum? Johnny Depp pode reclamar que “Hollywood o está boicotando”, mas a Justiça do estado da Virgínia. Tony Bennett, que acaba de completar 95 anos e sofre de Alzheimer, é o último representante vivo de uma escola de grandes crooners.

Edmilson com os filhos, Ricardo e Dária e com a esposa Genuzia e a amiga Val

Guerreiro – Edmilson Carvalho, presidente ACACEC festejou seus 74 anos recebendo parentes e amigos na aprazível chácara em frente ao Clube do 100. As dezenas de presenças se deliciaram com comidinhas típicas da região, vinho, cerveja gelada e muita alegria. O aniversariante, fundador da Guarda Mirim e da ACACEC, tem feito um relevante trabalho social que merece todo apoio e reconhecimento do povo de Euclides da Cunha. Apesar das dificuldades que enfrenta, em breve, ele poderá dar uma bela notícia aos usuários da instituição. 

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A princesa – Heloisa completou na data de ontem, 13/10, seu quarto aninho. Para festejar, os pais Joane e Gillon Dionísio, receberam nos jardins da agradável vivenda do casal, amiguinhas e amiguinhos, em especial, da Escola O Saber. De Salvador, veio a vó paterna Adelice e os tios Marlon e Gilvan. A avó materna Sandra ajudou na organização da festa para a neta querida. E como o tempo passa muito rápido, um registro de Joane com Heloisa ainda engatinhando!

 

 

Feras beneficentes – No próximo dei 07 de novembro, o Estádio de Pituaçu recebe um jogo beneficente entre os times de dois euclidenses, o prestigiado fisioterapeuta Lucas Paim e o fazendeiro Rubinho, comandante das Fazendas Reunidas Limeira. Nos dois times, verdadeiras “feras” que atuaram em grandes de times da Bahia, do Brasil e até da Seleção Brasileira. Uma boa oportunidade para reverem campo, esses grandes profissionais da bola!

Um luxo só – O que Marilyn Monroe, Jay-Z e Nick Jonas têm em comum? Todos os três visitaram uma propriedade histórica em Holmby Hills, Louisiana, que recentemente chegou ao mercado por US $ 115 milhões (ou seja, mais de R$ 600 milhões) que pertenceu a Cher e Tony Curtis.

Apelidado de Estate Owlwood, a histórica casa 1.2201 metros quadrados foi construída em 1936 e projetada em estilo renascentista italiano pelo arquiteto Robert D. Farquhar. A casa principal possui nove quartos e 10 banheiros (além de um elevador e uma enorme escada em espiral), e há também uma casa de hóspedes, alojamento de equipe, quadra de tênis e uma piscina olímpica com casa de piscina na propriedade. Em toda a propriedade, você encontrará molduras elaboradas, grandes lareiras de mármore, cornijas esculpidas à mão, lustres de cristal e acessórios dourados.

Vitória – Johnny Depp pode reclamar que “Hollywood o está boicotando”, mas a Justiça do estado da Virgínia (EUA) acaba de entregar à estrela da franquia ‘Piratas do Caribe’ uma grande vitória em seu processo por difamação de US$ 50 milhões contra Amber Heard, com quem ele foi casado de 2015 a 2017. Os advogados do ator afirmam que ele está “satisfeito” depois que uma juíza se recusou a abandonar o polêmico caso.

 

Vitória 2 – Depois de um grande susto, a querida amiga Anatalia Riley volta a apreciar as borbulhas da Veuve Cliquot servida pelo Maridão William. Como estamos falando aniversários, voltamos a comemorar o dela em 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, que naturalmente, não se importará se comemoramos também o dia de Nossa Senhora da Vitória, pois Anatalia acabou de vencer o COVID 19 (já estava com as duas doses de Coronavac) e 10 dias de intubação. Viva Anatalia!

 

Gloria – Tony Bennett, que acaba de completar 95 anos e sofre de Alzheimer, é o último representante vivo de uma escola de grandes crooners, como Frank Sinatra, Gene Austin, Nat King Cole, Bing Crosby e Dick Haymes. Nessa constelação de vozes notáveis, notabilizou-se por interpretações de standards americanos com apreço inconfundível pelo jazz. Nascido em 1926, no subúrbio nova-iorquino do Queens, Anthony Dominick Benedetto é neto de imigrantes italianos da empobrecida Calábria, e aos 10 anos já trabalhava para ajudar a família. Aos 18, em 1944, foi convocado para lutar na Alemanha durante a II Guerra — e sofreu preconceito nas fileiras do Exército americano por sua ascendência italiana. Ao voltar para casa, em 1946, começou a cantar em clubes de jazz do Greenwich Village, onde foi descoberto por uma gravadora. Em sua carreira de mais de setenta anos, vendeu 50 milhões de discos e apresentou-se para multidões ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

O grande cantor, já em um estágio muito avançado da doença, transforma-se completamente quando toma o microfone e encara a plateia. Nessa condição, brilhou ao lado de Lady gaga, em recente show no Radio City de Nova Iorque; uma verdadeira glória!

                                                                        Por Celso Mathias & Agpress

Laços de (boas) famílias

 

 

 

Texto produzido em outubro de 2016 e reeditado para o novo formato da Revista VidaBrasil.

 

Essa é uma história de pessoas que tiveram origem em lugares distintos, distantes e transformaram-se em amigos quase irmãos. Falo do capixaba Antônio José Miguel Feu Rosa e do Baiano de Euclides da Cunha, José Mathias de Almeida Neto que muito cedo deixou a cidade natal para se transformar, ao lado do primeiro, em um dos mais respeitados cidadãos do Espirito Santo. Ambos foram desembargadores do Tribunal de Justiça e Feu Rosa, entre outras inúmeras atividades públicas chegou a presidente do TJ.

Zequinha, José Mathias de Almeida Neto, filho do meu avô Joaquim Mathias de Almeida, nasceu na casa onde nasceu minha mãe, todos os meus tios, eu e parte dos meus irmãos. Construída há mais de 100 anos, ainda pertence a membros da família. É a primeira da Rua de Cima, quase em frente ao Vauleza. José Mathias construiu uma carreira brilhante, faleceu aos 65 anos no exercício do cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

Casarão de Joaquim Matias

Antônio José Miguel Feu Rosa nasceu em Vitória, em 25 de fevereiro de 1934, filho de Pedro Feu Rosa e Leonor Miguel Feu Rosa. Formou-se pela Faculdade de Direito do ES e em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas. Foi deputado estadual em duas legislaturas e federal em outras duas. Além disso, foi jornalista, escritor, professor de Direito da UFES e Procurador do Estado. Foi secretário-chefe da casa civil do Governo do Estado, desembargador do Tribunal de Justiça do ES desde 1982, sendo o Presidente da 1ª Câmara Criminal. Foi Corregedor e Presidente do Tribunal Regional Eleitoral do ES e eleito Presidente do Tribunal de Justiça para o período de 1994/1995. Faleceu aos 73 anos em 10 de novembro de 2007.

Av. Ruy Barbosa em Euclides da Cunha
Triângulo da Bermudas, Vitória-ES

 

 

 

 

 

 

A juventude dourada que frequenta os luxuosos barzinhos da Praia do Canto em Vitória, pouco sabe desse euclidense que hoje dá nome ao Fórum Criminal do Espírito santo e a juventude euclidense que desfila pela elegante Avenida Ruy Barbosa tem pouca informação sobre o ilustre conterrâneo e desconhecem a história do brilhante capixaba Antônio José Miguel Feu Rosa que inclusive chegou a visitar Euclides da Cunha em companhia do amigo.

Enquanto candidato a deputado federal, Antônio José Miguel Feu Rosa teve no juiz José Mathias de Almeida Neto, um discreto, porém determinado eleitor. Mais tarde, nomeado desembargador na cota da OAB, Feu Rosa foi eleitor de Mathias para ocupar a vaga de desembargador onde foram pares.

João Miguel Feu Rosa

 

 

Surge então um novo membro da família Feu Rosa, o economista João Miguel que ingressa na política Capixaba e, entre outras atividades, é eleito duas vezes deputado federal. Entre os seus eleitores; José Mathias de Almeida Neto! 

 

A essa altura, o jovem advogado Pedro Valls Feu Rosa filho do desembargador Antônio José ingressa na magistratura e, ao assumir uma Vara na capital do Espírito Santo chama a atenção dos meios jurídicos pelo ritmo que imprimiu ao trabalho e passa a ser visto como um brilhante juiz.

Apontado para ocupara uma vaga no Tribunal de Justiça aos 27 anos de idade, Pedrinho como é conhecido círculo familiar, foi envolvido em uma enorme polêmica.

 

Um belo dia recebo na sede da Revista VidaBrasil, meu sisudo tio José Mathias de Almeida Neto. Viera dar um depoimento a favor de “Pedrinho” em quem ele enxergava o perfil do juiz que provocaria as mudanças necessárias no Judiciário Capixaba. Como a polêmica girava em torno da idade de Pedro Valls Feu Rosa e no fato dele ser filho de um desembargador, José Mathias argumentou: O fato de o ator Michael Douglas ser filho do veterano Kirk Douglas influencia para que ele seja bom ou mau ator?

Tempos depois meu tio José Mathias é diagnosticado com um câncer que lhe ceifa a vida aos 65 anos. Para seu lugar foi escolhido o jovem juiz Pedro Valls Feu Rosa de apenas 27 anos de idade.

Hoje, por iniciativa de Antônio Jose Miguel Feu Rosa, o Fórum Criminal da cidade de Vitória tem o nome de José Mathias de Almeida Neto e, como “O tempo é o senhor da razão”, o atual decano do TJ-ES Pedro Valls Feu Rosa é, aos 46 anos de idade, o seu presidente, eleito por unanimidade e reconhecido dentro e fora do Brasil como personalidade de notório saber jurídico, respeitado pelas importantes decisões e mudanças que vem implantando no judiciário do Espírito Santo e sendo copiado pelo mundo afora.

Feu Rosa pai e filho desembargadores contemporâneos no TJ-ES

E aqui entra mais um elo nesse laço de família. Meu sobrinho, o jovem advogado Gabriel Amorim, sobrinho neto de José Mathias e já admirador e conhecedor da obra de Pedro Feu Rosa, acaba de ser recebido pelo próprio no gabinete da Presidência do TJ-ES para duas longas horas de boa conversa, reminiscência e planos futuros. Tudo indica que Gabriel aos 23 e Pedro aos 46 ainda terão pela frente muitos encontros porque para pessoas como eles, o céu não é o limite.

 

                                                                                                   

                                                                                             Por: Celso Mathias

Apolo

No final dos anos 80, o empresário capixaba Apolo Jorge Rizk, já consolidara o negócio iniciado com o pai, Nagib Rizk, a Concessionária Ford Contauto e, com pouco mais de 40 anos, atuava em diversas frentes, como agropecuária, Concessionária Honda, Ford Caminhões e consórcios. No início dos anos 90, com a liberação da importação de veículos, foi um dos pioneiros com as marcas Suzuki, Peugeot e Subaru e entrava no rol de empresários top do país. Cortava os céus do brasil em um Learjet 35, além de dois aviões a pistão, dimensionados para as pistas das suas fazendas.

Ainda muito jovem, casou com uma jovem da família Helal. O casamento durou muito pouco, mas o relacionamento entre as duas famílias permaneceu sem arranhões. Com a segunda esposa, a médica baiana, Fátima Figueiredo, teve os filhos Apolo e Gabriel Chalouri Figueiredo Rizk.

Através do saudoso publicitário Antônio Barros, baiano de Santa Bárbara, me aproximei de Apolo Rizk, aparentemente um homem muito rígido e sisudo. Descobri então, se tratar de alguém que transbordava simpatia e bom humor ente seus familiares, colaboradores e amigos.

Juntos, contamos muitas histórias nos almoços de sexta-feira no Restaurante Taurus, onde a marca do “Turco”, era retirar o relógio do pulso ao sentar à mesa. E aí, o almoço se estendia até o final da tarde. Nos voos bate/volta para São Paulo a fim de tratar de negócios, mas onde sempre sobrava espaço para um bom almoço e em muitas outras oportunidades, mais no meu, do que no escritório dele.

Voluntarioso, mesmo trabalhando muito, sempre sobrava espaço para aconselhar um amigo e até presentear com algum mimo para descontrair. Entre outros, guardo até hoje, esse apoio de livros que ele me presenteou em um dessas ocasiões. Unindo o útil ao agradável, sempre comprava os presentes na Loja de Decoração de D. Rute, a mãe dele.

Em 1993, uma quase tragédia, que acompanhei de perto, marcou para sempre o destino da família Rizk. O filho caçula, Gabriel Chalouri Figueiredo Rizk, foi retirado dos braços da mãe e sequestrado por profissionais que não deixaram rastro. Acompanhei de perto o episódio que custou uma grande quantidade de dólares, recolhidos às pressas entre vizinhos e amigos da elegante Ilha do Frade, onde vivia a família. Louco pelos filhos, os que acompanharam de perto o episódio tiveram a oportunidade de ver o desespero de um pai e certos aspectos que envolvem terceiros e quem sabe um dia, o grande negociador para o final feliz, Cel. Luiz Sérgio Aurich, possa contar!

A partir desse episódio, Apolo transferiu a família para Boca Raton, na Florida e passou a se dividir entre a mansão da Ilha do Frade e do lugar que escolhera para que os filhos vivessem com mais segurança e recebessem melhor educação.

Na virada do ano 1998/1999, marcamos um encontro em Londres. Eu, partindo de Paris, onde me encontrava, ele, Fátima, Apolinho e Gabriel, partindo de Orlando. Sempre discreto, me falou sobre a felicidade de viver incógnito em Boca, onde comprar uma Mercedes 600SL de 12 cilindros e podia passear com a família sem ser notado. Em Londres, nos hospedamos no London Hyde Park Hotel e ele alugou uma Mercedes Limusine de época com motorista e tudo mais, fazendo para mim uma recomendação: aqui, somos amigos e você não é jornalista. Câmara fotográfica está terminantemente proibida.

Naquela cidade, visitamos lojas de departamentos, rimos muito e Apolo parecia uma criança provocando sustos sob o fog londrino. À noite, reservou um belo restaurante para jantarmos, mas antes, em um local onde haviam grades de proteção muito altas, a baiana Fátima Figueiredo, em ritual de agradecimento, esforçou-se para atirar flores ao Tâmisa, despertando a curiosidade de policiais que por ali passavam e muitos risos no então marido.

Tempos depois, ele e Fátima se separaram. Com ela, continuaram os filhos que nos Estados Unidos foram educados e preparados para a vida. Muitas vezes, conversava comigo sobre o desenvolvimento dos dois, das excelências de Gabriel e da veia musical de Apolinho. Mantivemos proximidade e amizade fraternal, até 2001 quando deixei o Espirito Santo e por opção me isolei, mas nunca deixei de acompanhar a trajetória brilhante do grande cidadão e empresário. Já sabia que ele estava doente, e que há tempos, os dois filhos tinham voltado a morar em Vitória e dar seguimento às atividades do pai. Ontem, Apolinho e Gabriel ficaram órfãos. Apolo lhes deixou, muito além dos bens materiais, uma história de honradez, empreendedorismo e caráter. Descanse em paz, amigo velho!

 

 

 

 

Por onde anda o Nêgo que veio do céu?

 

Em matéria produzida em maio de 2012, contei um pouco da bela história de um euclidense que fez muito por muita gente dessa terra. No difícil momento que a humanidade atravessa, é bom lembra de quem já estendeu a mão a quem precisava, inflamou palanques políticos e se doou à cidade. Por isso, é bom perguntar: por onde anda Judival Araújo, o Nêgo da Lindaura?

Dobrava o sino da velha igreja com o repicar solene convidando para a missa de domingo. O severo Padre Jackson paramentava-se na estreita sacristia onde descansavam o sono eterno, figuras ilustres que construíram o Cumbe ganhando o direito de ali repousar. Entre os frequentadores mais assíduos da casa, o comerciante Pedro Quirino sempre elegante com sua gravata borboleta e o saquinho de veludo verde como qual recolhia donativos para a causa vicentina.

A Praça da Bandeira onde foi erguida a primeira Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, já nasceu

com o apelido de Rua da Igreja. É nessa “rua” então habitada por boa parte da classe média local, que vamos encontra o menino Judival Araújo, o Nêgo da Lindaura. Nascido em Canudos, então distrito de Euclides da Cunha, migrou por várias cidades da região acompanhando o pai, soldado PM Agnaldo Augusto Araújo. “Meu pai era sempre chefe de destacamento. Como ele era o único soldado, era o chefe dele mesmo”, conta Nêgo aflorando sua impressionante veia humorística.

 

 

 

 

Em 1959 o soldado Agnaldo e sua mulher Lindaura fixaram-se na Rua da Igreja na casa onde hoje funciona o Martelinho de Ouro. O casal gerou 18 filhos. Seis morreram ainda criança. Dos doze restantes, me lembro especialmente do Nêgo e do Juarez.

 

A pequena igreja construída no final do século XIX por um metre de obras chamado de Conselheiro (não se trata do beato de Canudos), também construtor do Cemitério de São José e de outras igrejas na região, ocupava uma lateral da praça com os fundos mais ou menos em frente à casa de Pedro Agres de Carvalho, o Pequeno, pai de Joaninha Parteira e avô de Bodoiô, a poucos metros do local onde hoje está Churrascaria da Carminha. Lamentavelmente demolida, a antiga igreja que servia de cemitério para pessoas ilustres, levou com o entulho, uma boa parte da história da cidade.

 

Juarez, o irmão do Nêgo tem uma história muito peculiar. Dono de inteligência privilegiada e de um gênio indomável, construiu na Policia Militar da Bahia uma carreira brilhante, porém cheia de altos e baixos. Ao contrário do que conta a história, foi ele o primeiro Euclidense a chegar ao posto de Coronel através de formação regular. Entre brigas, episódios envolvendo álcool e outras ocorrências não elogiáveis, concluiu brilhantemente o curso de oficial e percorreu todas as etapas até atingir o posto de Coronel. Morreu aos 65 anos.

Na Rua da Igreja, reunia-se com o Nêgo para partidas de futebol e diversas traquinagens, um grupo formado por Rivaldo, hoje comerciante na Avenida Ruy Barbosa, Zué, Bodoiô, Reginaldo e Totinho, filhos de Miguel Fogueteiro, e os saudosos Domingos de Guilherme, Aderno e Gildão.

Ente as traquinagens do Nêgo, a mais carregada de adrenalina consistia em correr sobre as paredes da nova igreja em construção e ainda sem teto a mais de 15 metros de altura. A plateia se enfileirava entre assovios e aplausos.

 

Em 1961, uma tragédia ceifa a vida Miguel Fogueteiro e a família Maia, muito ligada à família de Nêgo muda-se para Salvador e junto vai o traquina procurando melhor condição de vida. Todos os Maia conquistaram espaços importantes nas atividades que abraçaram. Nêgo não decepcionou. Em 1964 ingressou no Corpo de Fuzileiros Navais onde se aposentou como sargento em 1969 ao se ferir gravemente em um salto de paraquedas, divisão na qual atuava.

E foi após cair do céu que Nêgo retornou a Euclides da Cunha, juntou seu soldo e economias para tentar melhorar a vida dos familiares que aqui ficaram.

Inteligente, bem informado e líder por natureza, colaborou em diversos projetos ajudando a melhorar a qualidade de vida de parentes, amigos e até de simples conhecidos.

 

Participou de diversas campanhas políticas sem nunca se candidatara a qualquer cargo eletivo e, em várias administrações, atuou como responsável por algum setor, sem nunca receber um tostão de salário. “Sou aposentado. Já recebo do Governo Federal e por isso, acho que devo dar a minha contribuição sem receber mais nada”, justifica ele.

 

Irreverente e cheio de tiradas humorísticas e filosóficas, consegue com graça dizer tudo que pensa das pessoas sem nunca as ofender. Chama alguns de velho, outras de feia, alguns de analfabetos… diz o que bem quer sempre com um sorriso franco e uma carga de humor que só ele sabe fazer. Dito por qualquer outra pessoa, as palavras dele soariam como ofensas.

Somos resultados de um estrato social atípico. Fui criado em Euclides da Cunha que tinha uma população predominantemente parda, uma grade quantidade de brancos notadamente da família Abreu e negros que foram amigos de infância e que na nossa cabeça nunca fez e faz qualquer diferença. Entre outros que aqui residem, o Nêgo da Lindaura (na foto com o saudoso Zeca Dantas) é um desses para quem racismo é apenas uma piada que ele utiliza com frequência. E é essa irreverência inteligente que faz dele um ser impar que transita em qualquer ambiente, em qualquer classe social, em qualquer tendência política sempre se impondo como um cara que caiu do céu e sabe tanto olhar para cima como para baixo.

Homem de muitas amizades. Na sequência de fotos, com a amiga Lucinha, em desfile cívico ao Lado do prof. Delço Matias e com Tonheco Dantas.

 

A Visita

 

O som agudo de sinos vinha de longe. Estranhei a insistência. Levou um tempo para eu me lembrar de que era o som da nova campainha da porta de casa. Feriado nacional, e alguém chegava sem me avisar em dia de faxina. Descomposta, abri a porta, e você entrou todo molhado da chuva. Estava sério. Estranhei. Porque você nunca é sério. Você insistiu então que estava me procurando desde cedo em outro endereço, no mercado, no shopping, na chuva, na rua. Disse que tinha ido e vindo porque não queria desistir. Não daquela vez. — Desistir de quê? — Disse que tinha me ligado. Falei que não ouvi. Tão estranho você bater na minha porta e me falar, olhando sério para mim, que me procurava. Procurar por mim soava estranho. Como se eu não estivesse sempre aqui.

Como assim? De novo? Outra vez aquela história de você me querer. Falando desse tal desejo que era assunto encerrado faz tempo. Pedi pra você voltar duas casinhas e me dizer qual foi a parte do não vai rolar que estava desentendida. Você me olhou. E continuou me olhando, muito sério, enquanto tirava os óculos. Nunca conheci você como uma pessoa séria. Somos assim, de rir muito de tudo. Mas, sem óculos, parado ali, eu tinha de olhar para os seus olhos. Meio incômodo você na minha frente todo molhado. E sem óculos. Naquele instante, era como uma espécie de nudez toda sua diante de mim. Eu, descomposta, roupas soltas de faxina, descalça e descabelada. Ia nisso também outra nudez: a minha diante de você, parado ali, absurdamente me querendo naquele dia feriado. E com chuva.

 

Expliquei-lhe então tudo outra vez. Você é só uma pessoa para mim. E pessoas não têm sexo. Pessoas estão aquém ou além da sexualidade, e desta eu já nem me lembrava mais, desde que me fora cirurgicamente removida. Não adiantou explicar. Nem falar pra você sobre o meu olhar agudo lançado ao mundo. Minhas vontades e minhas não vontades. Tentei mais uma vez retornar aos fatos, racionalmente. Minha lógica, naquele momento, não dispensava argumentos. Falei e cansei, porque, o tempo todo, você só me olhava. E olhava para a minha boca enquanto eu falava. Ia chegando perto, mais perto.  Parei de falar por conta dos seus beijos. Um pouco tímidos primeiro. Depois mais insistentes. Não correspondi. Mas fui deixando que você me beijasse. Você não ia me ouvir mesmo. Não quis lhe dar um daqueles empurrões estilo chega pra lá, como sempre, porque desta vez você estava sério. Das outras vezes, tudo era riso e brincadeira.

Beijos. Só isso. E a chuva. E o feriado. Você me beijando era quase um pecado, mas beijava. Com ansiedade, sim, mas vagarosamente. Na hora pensei que, afinal, era só você e que ia passar. Mas estava demorando tanto. Comecei a perceber que sua boca era macia e que a pressão estava certa. Deixei que você colocasse sua língua dentro da minha boca, e você fez isso bem devagar. Eu espreitava cada movimento seu. ― Maldita lucidez! ― Percebia os seus músculos sob a roupa molhada, o seu cheiro e as batidas do seu coração. Me aproximei um pouco mais do seu corpo e senti que os seus braços me puxavam. Você era firme, me atraía para perto de você, mas fazia isso delicadamente. Como se soubesse calcular as forças e, sem me arrastar para muito perto, não deixava, de jeito nenhum, que eu fosse para mais longe. Não fui. Deixei que o meu corpo chegasse muito perto do seu. Notei o quanto de desejo havia ali, entre as suas pernas. Sorri naquela hora, porque era tudo muito inusitado. O feriado, a chuva, a surpresa, seus beijos, seu desejo explícito e eu, bem ali, no meio de tudo aquilo.

Notei que o seu tamanho combinava com o meu, mesmo que você seja bem maior. O seu beijo passou a ser também o meu beijo, e o seu corpo se somou ao meu corpo. Sua barba um pouco crescida me arranhava deliciosamente. Depois percebi que não estava mais sentindo o chão e que você estava me levando para o meu quarto. Via as paredes da casa ficando atrás de nós. A porta estava aberta. A cama, arrumada.

A chuva então despencou com força. Era musical. Eu tinha, sim, muito presente todos os meus discursos, todas as minhas teses, toda a arrogância que me distanciava do corpo há tanto tempo. Tinha tudo isso presente, tão presente quanto o absurdo daquela situação que não era para ser. Maldita lucidez. Era você bem ali, e também eu, e estávamos nos beijando, no meu quarto, diante da minha cama. Era algo meio surrealista. Pensei afinal que, se fosse pra ser, teria preferido um dia no qual eu pudesse estar menos vulnerável. Porque eu estava vulnerável naquele momento: descomposta, descalça e descabelada. Você só parou de me beijar quando, de pé, na minha frente, com as mãos pressionando os meus ombros, me fez sentar à beira da cama, prendendo meus joelhos entre as suas pernas. Sem deixar de olhar para mim, você tirou o seu blusão molhado. Depois, a camisa. Pude olhar pra você em detalhes. Não falamos mais nada, mas percebi, pelo seu olhar, que você me pedia para não lhe dizer não. E eu sei que, se lhe pedisse para parar, você pararia. Mas eu não pedi, e você não parou. Também não impedi que você tirasse o resto das suas roupas, nem que você tirasse todas as minhas, nem que me visse nua. Não importava mais àquela altura o meu corpo, porque eu via, sim, era o seu corpo bem de perto e todo o seu desejo que, naquela hora, ia todo para mim. Eu não disse nada. Apenas dei lugar para você se deitar do meu lado na cama. A chuva não parava, e eu via que, se ela não parava, eu também não ia pedir para você parar, porque as águas da chuva lá fora inacreditavelmente vieram ter comigo. Percebi então que o seu desejo era o meu desejo. Simplesmente eu também estava ali querendo que você continuasse a me abraçar daquele jeito. Não havia planos. Só aquele instante. E a chuva. Deixei que você percorresse meu corpo. Me enterneceu perceber que você me descobria como criança diante de um brinquedo desconhecido, que você me olhava, me examinava, e me acariciava docemente. Depois, com força, me abraçava como se eu fosse fugir. Não fugi. Sempre pensei que você seria o último homem com quem eu me deitaria. Tinha absoluta certeza de que você não saberia como me tocar, nem onde. Mas a cada gesto seu, eu me descobria múltipla. Suas mãos e sua boca percorreram regiões do meu corpo de cuja existência eu nem suspeitava. Eu sentia o seu desejo, e ele era o meu desejo também, e a chuva era o ritmo daquilo tudo. Ora forte, com trovões e relâmpagos, ora sossegada, quase uma garoa. Comecei então a tocar no seu corpo e senti que, sob as minhas mãos, seu desejo respondia mesmo aos toques mais sutis. Ao final, algo se criou ali. Espécie de nós dois, tão descompensados, tão desiguais. Quando passou, nos encostamos um no outro. Breve olhar que selou mais uma cumplicidade: vamos selecionar essa última hora, deletar tudo e fechar sem salvar nada. Atentos, ouvíamos a chuva e o tempo que, em breve, ia recomeçar sua contagem. Sempre em silêncio, porque não havia nada para dizer. Depois tudo aquilo pareceu distante e estranho. Só me lembro dos sinos, que tocavam insistentemente ao longe, e depois mais de perto. Era a campainha da porta de entrada. Olhei em volta da cama e percebi ao meu lado apenas um livro aberto. Anoitecia. A chuva molhava as cortinas do quarto. Uma janela aberta batia com vento. O sino da campainha soou outra vez.

Sonolenta me sentei na cama. Acendi a lâmpada de cabeceira. Descalça, segui pelo corredor e fui até a porta. Era você. Todo molhado. Viera na chuva dizendo que precisava me ver. Respondi então que eu, naquele instante, só precisava mesmo era de um bom café.

 

PorBeatriz Basto

A Confraria dos Puros

Alexandre Avellar, Cezar Villar de Melo, Wilson Minhoca, Vivi e Ramaldes da XYZ em reunião agradável no Pier

O Espírito Santo sempre foi pródigo em coisas boas. Mármore, granito, bom café, transporte e por aí vai. Em boas novidades sofisticadas também: importação de automóveis e especialmente no consumo de bons vinhos iguarias e charutos. Quanta saudades da Casa do Porto da Aleixo Neto, sob o comando do querido Péricles, que hoje brilha nos Jardins da Pauliceia. Mas vamos falar aqui de charutos e focar nas confrarias, lugar onde pessoas que têm ótimo gosto e um bom trocado no bolso, já que um Cohiba Robusto, um dos meus prediletos, precisa de cerca de U$40 para ser abatido, ou queimado, se reúnem para harmonizar discussão sobre o sentido da vida, da forma mais agradável possível, ou seja, entre longas e saborosas baforadas.

Charuto Cohiba Robusto

Pois, em Vitória, capital do Santo Estado, um grupo seleto fundou a Confraria dos Puros, a primeira da cidade. Para conhece-la, nada melhor do que dar uma baforada no texto de um dos seus fundadores e presidente, o brilhante advogado Carlos Augusto da Motta Leal. Vai ter início a sessão:

Apreciadores de charutos exalam convivência, inspiram-se por boas conversas e encantam-se com as melhores histórias, ainda que sejam estórias. Crescer pessoalmente é conviver e conviver é ouvir, falar, rir e aprender. Isto, no amálgama em que consiste o hábito de degustar um bom charuto com amigos, é uma das ótimas coisas da vida.

Carlos Augusto da Motta Leal, Fernando Madeira, Cezar Villar, Aloísio, Leonardo Lage da Motta, Gervásio Viçosi e Wilson Minhoca

Neste propósito é que há mais de dez anos, começamos a nos reunir em Vitória para degustar um puro no fim das sextas feiras e com a alegria peculiar inaugurar o fim de semana. Eu, Cezar (Ave Cezar), Wilson Minhoca e Leo, no extinto Café Tabaco.  Muitas risadas e ótimos papos. Logo logo, nosso hábito então inusitado, incomodou os presentes, mesmo com aquele tufão (ah aquele tufão…) não permitiu que ali persistíssemos. Gentilmente convidados a não voltar com charutos, descobrimos uma Loja de Roupas na Celso Calmon, que teve a ideia de depois das 18:00 h criar um ambiente para

fumadores e bebedores: dois ótimas e harmoniosos hábitos. E lá fomos nós, já ensaiando dar corpo, pois alma já tinha e muita, ao nosso grupo. Em uma das belas e agradáveis noites, Cezar cuidou de se empolgar com um vinhozinho e passamos a ser especiais clientes do estabelecimento.  Local agradável, garçom empolgado, momentos sempre memoráveis

 

Não durou muito, a ideia comercial da casa pereceu e ficamos desabrigados novamente. Eis que o café da esquina da João da Cruz com a Aleixo Neto nos recebeu e muito bem.  Neste momento já agregava valor à Confraria o grande Gervásio

Paulo Finamore e Gervásio Viçosi

Viçosi. Dias e noites ótimos ali. Ponto especial, nós exalando muita fumaça e alegria – as mesas ao lado com aquele infeliz abanar –  e ficamos… Certa noite a atendente anunciou o pior: a casa vai fechar. Logo veio o pensamento: seremos nós os destruidores de estabelecimentos? Algum otimista pautou a ideia: vamos comprar o ponto, fumar tranquilo aqui e ganhar um cascalho, pois aqui falta é gestão… coisa da terceira taça e do segundo doble corona. Logo o racional subiu e se viu que era furada. Resultado: desabrigados novamente. Mas aí, da mente poderosa de Wilson Minhoca nasceu a ideia: vamos criar nome, marca e logo para merecer a devida valorização e vamos para a calçada da Cachaçaria em Camburi. E lá fomos nós de casa nova. Muito bem recebidos, ficávamos no cantinho na área externa. E não é que demos fama e público ao

local? Qual não foi a surpresa a turma do abanador apareceu. Mesmo sentando depois sempre um infeliz a reclamar e com ousadia: – “tá fedendo a charuto aqui. ” Opa! Aí ofendeu! Charuto tem aroma, perfuma o ambiente e jamais pode ser

agravado com esta injúria. Mas como bom fumador quer paz, alegria e não gosta de incomodar, Minhoca, sempre ele, o

Wilson  (Minhoca)

criador e Embaixador da confraria dos puros, citou o Amadeu e sua casa, o Canto do Vinho. E lá fomos nós: enfim um porto seguro. Canto nosso, atendimento especial, mesa marcada, cinzeiro albergado e só alegria. Achegaram-se com muito valor Fernando Madeira, Aloisio e Luizinho. Muitas e muitas sextas, até que Amadeu falou em vender a casa e pediu para vender junto, para agregar valor, o registro de que era o loc da Confraria dos Puros.  Permitimos sem royalties pois

somos gratos à especial acolhida … nesta época Fernando Mattos já cerrava nossas fileiras com vigor. Habanos, off Cuba e baianos de escol pululavam à mesa. Eis que Ronaldo comprou a casa (Pier Aleixo) e manteve a mesma pegada, com um adendo, ele aprecia bons puros. E lá estamos e continuamos, inaugurando os fins de semana com ótimos puros e bons papos, às sextas-feiras as 18:30h.

Confraria dos Puros, sinônimo de bons papos e memoráveis momentos. É só chegar, sentar, acender um puro de boa índole que a alegria é certa!

                                                                   Por Carlos Augusto da Motta Leal

 

Os confrades, Fernando Madeira, Fernando Mattos, Gervásio e Carlos Augusto

A noite em que Waldick Soriano redesenhou o society carioca

Encontrei esse delicioso texto de Renzo Mora, que me fez viajar ao início dos anos 60 e recordar o meu primeiro “copo” de vinho, o abominável – não naquela época –  Liebfraumilch, aquele da garrafa azul, importado diretamente da Alemanha. Waldick Soriano, então casado com uma tucanense que seria parente do meu pai, viera a Euclides da Cunha, para se apresentar no Cine Maria da Graça. Fui recepciona-lo no Hotel do Guinho, que ficava na Rua da Bomba, onde hoje está instalada a loja Canário Materiais de Construção. Calça de veludo cotelê marrom, camisa xadrez, sapato mocassim, chapelão de cowboy e o indefectível óculos escuros, subimos a pé para a Praça Duque de Caxias e fomos ao Café Society, o bar de Zezito, pai do popular Nei Campos, localizado onde hoje funciona o Bar Princesinha. Ali, retirou da sacola, aquela linda garrafa e me ofereceu um copo com o “leite da mulher amada”. Foi o primeiro de milhares de outros copos de vinho que até hoje venho degustando e aprendendo. Obrigado WaldicK!

                                                                                                                                            Celso Mathias

Há dois Rios – O de antes e o de depois da passagem de Waldick Soriano pela boate Flag

Janis Joplin foi barrada na porta da Flag, um dos templos da boêmia e da boa música do Rio de Janeiro nos anos 1960. Em compensação, Elis, Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Sarah Vaughan não apenas passaram pelo porteiro do festejado club do Chef José Hugo Celidônio em Copacabana como deram canjas memoráveis, acompanhadas ao piano pelo mestre Luís Carlos Vinhas.

Com esse finíssimo pedigree, deve ter provocado alguma espécie o show agendado para aquele dezembro de 1971: O rei da cafonice, Waldick Soriano. Nos dias de hoje, quando milionários com déficit proteico na infância (fator identificado como inibidor de QI) ouvem abominações neo-sertanejas à guisa de música, talvez a mistura não provocasse tanta estranheza. Mas, naqueles tempos, o dinheiro não se limitava a exibir grifes: tinha que mostrar refinamento – ou pelo menos alguma imitação relativamente passável. O show de Waldick no Flag tinha sido um arranjo de Beki Klabin, a extravagante milionária turca que animava as noites cariocas. A ex do cirurgião plástico Hosmany Ramos (mais tarde preso por tráfico internacional de drogas), conhecida pela ausência de atrativos não monetizáveis, estava nos bastidores do programa do Chacrinha (onde era – vá lá – “jurada”) quando encontrou o intérprete baiano e rendeu-se ao seu charme rústico, iniciando um comentado romance.

Waldick foi agendado como um freak show, uma piada para milionários entediados, uma espécie de atração de safári fotográfico pelo subúrbio. Mas eles, obviamente, não sabiam com quem estavam lidando e cometeram o erro de menosprezar nosso Johnny Cash. Vamos começar, bem, pelo começo: Waldick teve uma origem tão pobre quanto Cartola, por exemplo. Angenor de Oliveira foi, como ele, servente de pedreiro (usava um chapéu-coco para se proteger do cimento que caía de cima, o que lhe valeu o apelido).

Eurípedes Waldick Soriano iniciou sua vida profissional no mundo não exatamente cordial do garimpo, onde qualquer mínima desavença pode terminar em assassinato. Ele próprio por pouco não matou o novato desavisado que deu um tiro em seu bicho de estimação – uma jiboia de nome Índia (a tristeza com a morte da cobra teria sido a razão dele ter abandonado as pedras preciosas da baiana Serra da Coruja). De lá, juntou seus trocados e partiu para as ruas de São Paulo, determinado a virar cantor. Antes disso, foi engraxate – e não seria impossível que pouco tempo antes ele tivesse lustrado o sapato de alguns de seus espectadores daquela noite na Flag. Cartola escreveu sambas memoráveis, como “As Rosas Não Falam” e “O Mundo é Um Moinho”. Mas Waldick compôs – entre outras pérolas – “Tortura de Amor”,    genial bolero eternamente ignorado pelos estudiosos de música, o que deixa claro: o andar de baixo pode fazer música, desde que circunscrita a um gênero devidamente chancelado pela intelligentsia. O resto é brega e não falamos mais nisso.

Para aprisioná-lo ainda mais no último círculo do folclore nativo, o visual de Waldick era produto de sua tentativa duvidosa de emular o estilo de seu ídolo das telas, Durango Kid – terno preto, chapéu e óculos escuros. A primeira aparição de nosso man in black devidamente paramentado provocou o que ele chamou de “mangação” por parte da cafajestada de um bar em sua Caetité natal. Ele colocou seu cavalo para cima dos “mangadores”, espancou os desajuizados que não fugiram e impôs seu look definitivamente. E foi de cowboy de matinê que ele venceu as portas da Flag. O início foi frio. Waldick não conhecia o público – e este ignorava qualquer canção de seu repertório que não fosse a icônica “Eu Não Sou Cachorro Não”. Mas sua química começou a funcionar. As mulheres começaram a beber. E, bebendo, começaram a sentir a combinação mortal de Scotch 12 com os feromônios fermentados com cal no pátio de uma construção. Ao final, como ele próprio contou em suas memórias “…a festa chegou ao máximo. Tirei o paletó, abri a camisa e subi no piano. As granfinas vinham me cumprimentar, abraçando-me, beijando-me… uma delas, quando me beijava boca-com-boca, língua-com-língua, deu-me uma sensação de loucura tão grande que caímos ali no meio do salão e fomos apartados, porque senão a briga era feia, naquela hora o troço seria imprevisível”. Sergio Bitencourt registrou em sua coluna no jornal O Globo de 22/12/1971: “Foi uma loucura. Não dava nem para periquito voar. De repente virou histeria. Gente que, sinceramente, eu nunca pensei, entregou-se”. Aquela noite no Flag deve ter deixado marcas indeléveis na sociedade carioca. Madames no Country Club passaram a ser julgadas com base em sua falta de resistência ao cantor. Reputações quatrocentonas devem ter desmoronado. Senhoras até então respeitáveis guardaram seus maiôs e desapareceram da piscina do Copacabana Palace. Casamentos estremeceram. Namoros viraram pó. Beki Klabin passou a ser – pela primeira vez – alvo da inveja de seus pares. Sócios de longa data podem ter rompido aos tapas depois de ouvir uma das partes comentar inocentemente “sua mulher, hein, como gosta do Waldick…” A piada da noite era Waldick. Mas ele riu por último.

 

 

 

Por Renzo Mora – escritor e roteirista. Publicou os livros “Cinema Falado”; “Sinatra – O Homem e a Música”; “Fica Frio – Uma Breve História do Cool” e “Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo”.