Você lembra que Euclides da Cunha tinha?

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Que saudades das matinês do Cine Maria da Graça! Sim: se você não sabe, esta cidade já teve um cinema — um dos instrumentos de cultura mais importantes do século XX. No domingo à tarde, a rapaziada colocava a melhor roupa para assistir Zorro, Durango Kid e Bill Elliott; e, à noite, eu cheguei a ver verdadeiras pérolas como “Hiroshima, Mon Amour”, de Alain Resnais. Eram sessões que não só entretinham: também formavam o olhar, a conversa e o imaginário da juventude.

E Euclides da Cunha não se limitava às telas. A cidade também já teve festas de São João memoráveis, com as casas familiares lotadas de parentes que vinham da capital. Era encontro de gente, de história e de alegria — com sanfoneiros regionais animando as noites, e com “feras” da cultura nordestina como Pedro Sertanejo, Oswaldinho e Dominguinhos. Havia música, mas também havia respeito, tradição e aquele senso de comunidade que hoje parece mais raro.

Depois, vinha o conforto de um Hotel Conselheiro que oferecia suítes agradáveis para receber viajantes ilustres — e, em certos momentos, até artistas globais. Tinha piscina e um pátio romântico, num clima de acolhimento que combinava com a hospitalidade da cidade.

E não dá para esquecer que Euclides da Cunha também teve o “pé no chão” de uma cidade que gerava movimento: já teve até matadouro municipal, onde criadores locais e de municípios vizinhos vinham abater suas criações. Isso fortalecia a economia, criava renda e movimentava a cadeia produtiva da região.

A cultura e o saber também tinham espaço: a cidade já contou com uma Biblioteca Pública em um casarão histórico, na praça mais antiga, que é referência por abrigar a Igreja Matriz. Era um tipo de lugar que guardava memória — e incentivava estudo, leitura e consciência do mundo.

Havia ainda o lado do convívio social, com um clube social (hoje abandonado) que reunia as principais famílias em encontros e festas, com bandas e cantores conhecidos nacionalmente. Ao mesmo tempo, a AABB — sede bem montada, do clube dos funcionários do Banco do Brasil — era frequentada por sócios e famílias da região, funcionando como mais um espaço de sociabilidade e lazer.

Para completar o circuito do dia a dia, Euclides da Cunha já teve uma banca de revistas que também funcionava como livraria, reunindo pessoas mais cultas e bem informadas — um verdadeiro termômetro intelectual da cidade.

E até na mobilidade, a cidade tinha estrutura: foi palco de pista de pouso municipal, asfaltada, com cerca de 1.500 metros. Por ali já pousaram várias vezes, com segurança, jatos de médio porte. Sem exagero, poderia ter sido transformada em aeroporto regional, com voos regulares para a capital.

No cotidiano urbano, as calçadas largas em avenidas principais permitiam a circulação com tranquilidade, sem esbarrar em mesas, cadeiras, móveis e ambulantes das mais diversas atividades — sinais de uma cidade que soube organizar fluxo e vida.

Por fim, a cidade já teve Centro de Cultura e também um Centro de Abastecimento que funcionava, garantindo sustento e dinâmica.

No fim das contas, Euclides da Cunha já foi — e, em muitos aspectos, ainda é — uma cidade acolhedora, com comércio forte, uma espécie de Feira de Santana da região, que atraía pessoas, criava oportunidades e dava identidade ao lugar. Essas lembranças não são apenas saudade: são prova de que a cidade já teve grandeza em forma de cultura, organização e gente.

Se você lembrar de mais alguma coisa que essa cidade já perdeu, comente aqui!

 

                                                                                                   Por Celso Mathias

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1 comentário

  1. Já assisti matinê no Cinema de Seu Jonas Abreu, ouvi música na praça através de uma difusora que não lembro o mome, algumas destas coisas que o autor citou precisavam realmente acompanhar a evolução do tempo, mas o choque foi o encerramento de uma biblioteca pública, inexplicável…

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