Em 1978, o músico americano Freddy Cole — irmão caçula do lendário Nat King Cole, dono de uma trajetória brilhante e também intérprete de Jazz e Blues — dividiu o palco com o nosso Roberto Carlos, no Especial de Natal da Rede Globo.
No ano seguinte, em 1979, desembarquei no aeroporto JFK. Ali, me aguardavam o saudoso amigo Hélcio de Antônio André — irmão do Helinho — e, para conhecimento das mais novas gerações, o tio do Ferrari. Estavam com eles a mulher, também saudosa, Patrícia, e o filho Charles, ainda criança. Eles haviam saído de Rochester e percorrido 335 milhas a bordo do Datsun da família apenas para me recepcionar.
Em 1987, a Aoki Corporation, capitaneada por seu Chairman Hiroshi Aoki — conhecido no Ocidente como Jhon Aoki — comprou o The Algonquin Hotel, em Nova York. Logo depois, a empresa conduziu a mais extensa restauração e modernização do edifício, ao longo de 1988 a 1990. Na mesma época, Jhon Aoki e sua esposa Chieko construíram um hotel fazenda nas montanhas capixabas, além de duas belas residências para a família do casal.
Foi por intermédio dessa ligação dos Aoki com o Espírito Santo que iniciei uma parceria com a hotelaria do grupo. Por muito tempo, — especialmente nos anos 90 —, praticamente me dividi entre Vitória (ES) e Nova York, cidade para a qual, imprimi, na minha indústria gráfica, um guia de Manhattan. Nesta, mantive full time no The Algonquin Hotel, na 44th Street, berço da Round Table, criada em 1919, onde um grupo famoso de escritores e críticos como Dorothy Parker e Harold Ross (fundador da The New Yorker) reunia-se e influenciava debates que ecoariam por décadas.
Na 46th Street, rua dos Brasileiros — depois denominada Little Brasil — já funcionava o Restaurante Via Brasil, comandado pelo mineiro boa-praça Luizinho. Um gentleman discreto, sempre impecavelmente vestido, com um elegante colete sob o blazer. O Via Brasil, que hoje está às vésperas de completar meio século, tornou-se ponto de referência em Nova York: não apenas para os brasileiros, mas também para todos os apreciadores da boa cozinha brasileira, sobretudo a feijoada, servida aos sábados. Por lá já passaram celebridades de cá e de lá, inclusive Lisa Minelli — e essa eu conto depois.
O encontro com Freddy
Hoje, quero falar de um encontro inesquecível com nada menos que Freddy Cole — aquele que, em 1978, participou do dueto com Roberto Carlos.
Numa tarde de sábado, deparei com o Freddy bebendo uma caipirinha no balcão do Via Brasil, enquanto aguardava a feijoada. A conversa foi fluindo, e eu percebi que Freddy se encantou com algo em especial: meu sapato de couro de crocodilo. Eram sapatos que eu havia ganhado de presente do meu amigo Wildson Pina, cabeleireiro e empresário de sucesso em Vitória. Foi ali que ele inaugurara uma loja com os calçados do renomado Fernando Pires, sapateiro de estrelas globais.
Brincando, eu disse ao Freddy que ele só não “os” ganharia de presente — porque o meu 41 estava bem longe do 46 que ele pisava.
O show e a frase no camarim
Tempos depois, vejo anunciado, no Restaurante Lareira Portuguesa, em Vitória, um show com o Freddy. Às pressas, encomendei um sapato similar ao meu e, no dia do show, fui ao camarim do artista. Ao adentrar, ele abriu os braços e falou, com aquela alegria que só as pessoas verdadeiras irradiam:
“Oh, the man with the beautiful shoes”.
Freddy Cole, nascido em Chicago, nos deixou aos 88 anos, em 27 de junho de 2020, em Atlanta, Geórgia.
Assisti ao show, comi um bacalhau impecável e guardei, além das memórias, os sapatos — e os tenho até hoje. Que me perdoe o Fernando Pires: os sapatos, são extremamente charmosos, mas, não são lá muito confortáveis!
Por Celso Mathias




