Fragmentos

Na seta, O Crediário de Jaime Amorim da Silva anos 60

Hotel Lua em meados dos anos 50

Texto produzido em 2006 e reeditado para o novo formato da Revista VidaBrasil

E, no Café Society, enquanto mastigava caramelos de café com leite, assistia a meu pai ingerir sua dosezinha de Jurubeba para forrar o estômago antes da Brahma gelada. Olhava para o outro lado da Avenida e enxergava o espetacular Hotel Lua, para mim, um dos lugares mais importantes da cidade, pois, lá, eu sentia a conexão com o mundo, através dos seus ilustres hóspedes: os viajantes. Lá, também morava Zeca Dantas que, vez por outra, atravessava a avenida e vinha até o Café Society beber cerveja.

Mordi aquele pãozinho dourado, crocante, e viajei de mala e cuia para Euclides da Cunha. Fui parar em um ensolarado fim de tarde sentado ao batente de “O Crediário”,(onde está a letra T) para quem não sabe a primeira loja de eletrodomésticos

da cidade. E olha que, naquele tempo, sequer existia essa expressão. “O Crediário” vendia de tudo. Fogão, geladeira, rádio Zilomag, porta de aço, bateria Heliar e até tratuá que nada mais era do que o piso externo de origem francesa, corruptela de “trottoir”, palavra que, hoje define uma atividade não tão nobre.

Na seta, O Crediário de Jaime Amorim da Silva anos 60

Do outro lado da “imensa avenida”, era assim que eu a enxergava até ali pelos meus 10 anos, estava a padaria de João Costa, o produtor daquela delícia que, até hoje, frequenta a minha memória gustativa. João Costa, além de padeiro, era também, delegado de polícia. Um homem alegre, inteligente e de uma impressionante velocidade de raciocínio. Naquela época, era assim! Os mais importantes cidadãos eram os comerciantes. Era também padeiro, o Raimundo Thomaz, ainda vivo e saudável, aos quase 90 anos e à frente dos seus negócios que dizem ser grandes.

O dono de “O Crediário” era meu pai, Jaime Amorim, que todos os dias, ao final da tarde, ordenava ao Dedé de Tutu ou ao

Jaime Amorim

Chico da Judite “Chico, vai ali ao João Costa e traz seis amanteigados”. Eles eram ajudantes do meu pai. O amanteigado era o pão quentinho feito pelo João Costa e untado com uma generosa quantidade de manteiga “Radiante” que era aplicada ao pão com uma espátula de madeira. O Dedé, hoje, deve ser um homem com cerca de 60 anos e vive em São Paulo. O Chico foi brutalmente assassinado em um dos becos da cidade, com menos de 20 anos de idade. Era um sujeito espirituoso, um piadista nato. Sua morte causou imensa consternação.

 

 

O sol escaldante desaparecia no fim da tarde e, a noite começava no Café Society ou Bar de Zezito como preferiam outros. O Café Society ficava na esquina da “imensa avenida”, a Ruy Barbosa, com a Praça Duque de Caxias, então apelidada de “Praça do Pau de Oliveira Brito”. Quem conhece a história da cidade sabe o porquê do apelido. Quem não conhece não pergunte porque não vou explicar, mas posso garantir que não tem nada de imoral.

Praça Duque de Caxias, então apelidada de Praça do Pau de Oliveira Brito

Foi o Zezito do Belo, ou Zezito do Bar ou Zezito do Alto-falante quem deu esse apelido à praça. Ele foi um homem à frente do seu tempo. Fundou o primeiro cinema da cidade, o primeiro serviço de alto-falantes, foi proprietário de um dos

Zezito Campos entre a bela Alba Carvalho e o governador Lomanto Júnior

primeiros automóveis e, ainda por cima, em pleno sertão baiano, onde há pouco tempo Lampião passara semeando brutalidade e terror, inaugura um bar cujo nome é Café Society, expressão em voga no Jet Set mundial.

E, no Café Society, enquanto mastigava caramelos de café com leite, assistia a meu pai ingerir sua dosezinha de Jurubeba para forrar o estômago antes da Brahma gelada. Olhava para o outro lado da Avenida e enxergava o espetacular Hotel Lua, para mim, um dos lugares mais importantes da cidade, pois, lá, eu sentia a conexão com o mundo, através dos seus ilustres hóspedes; os viajantes. Lá, também morava Zeca Dantas que, vez por outra, atravessava a avenida e vinha até o Café Society beber cerveja, abrir o sorriso largo e a gargalhada estridente brindando com o não menos ilustre, o sobrinho Nelson Bastos. Zeca Dantas se foi aos quase 100 anos. Também longevo, Nelson, aos 93, ainda passeia espigado pelas manhãs euclidenses.

Em frente ao Night Club, Zé de Zezito, morto precocemente em um acidente de automóvel.

Mas não era só o Hotel Lua que fazia a minha conexão com o mundo. Zezito, também! Com seu automóvel, seu serviço de alto-falantes e seu “Night Club”. Isso mesmo, além do Café Society, ele era dono de um legítimo Night Club em Euclides da Cunha nos anos 60, carinhosamente chamado de “Naiti”. Para completar, fundou o cinema que, em seguida, venderia para Jonas Abreu.

Cine Maria da Graça, o cinema de Jonas.

Jonas Abreu viveu e morreu para o cinema, para a família e para os amigos, não necessariamente nessa ordem. Foi no cinema dele, que assisti a um clássico do cinema mundial, Hiroshima Mon Amour, do cineasta Francês Alain Resnais. Era na casa dele que todos íamos, às tardes de domingo, ouvir, na moderníssima radiola Zilomag, o som de Miguel Aceves Mejia, Bienvenido Granda e os sucessos do momento com a turma da Jovem Guarda

 

 

 

Certo dia, meu amigo Herder Mendonça convidou-me para, na sua casa de espetáculos, o saudoso Rock In Rio-Salvador, assistir a um show de Wanderléa, a musa da Jovem Guarda. Aos 60 anos, exuberante e superprofissional, ela adentrou ao palco para se apresentar a uma plateia de uma centena de pessoas. Por um erro estratégico qualquer, a menor em toda a história da casa. Mesmo assim, cantou como se estivesse se apresentando num estádio lotado. No meio do show, deslocou-se do palco, veio até onde eu estava, tomou-me as mãos e cantamos juntos “Uma vez você falou, que era meu o teu amor…” (trecho da canção Ternura, de Roberto e Erasmo Carlos). Digo cantamos, mas não foi bem isso. Ela cantava e eu chorava lágrimas dedicadas àquelas tardes de domingo que Jonas nos proporcionava.

 

                                                                                                                                                 

                                                                                  Por Celso Mathias

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