A Visita

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O som agudo de sinos vinha de longe. Estranhei a insistência. Levou um tempo para eu me lembrar de que era o som da nova campainha da porta de casa. Feriado nacional, e alguém chegava sem me avisar em dia de faxina. Descomposta, abri a porta, e você entrou todo molhado da chuva. Estava sério. Estranhei. Porque você nunca é sério. Você insistiu então que estava me procurando desde cedo em outro endereço, no mercado, no shopping, na chuva, na rua. Disse que tinha ido e vindo porque não queria desistir. Não daquela vez. — Desistir de quê? — Disse que tinha me ligado. Falei que não ouvi. Tão estranho você bater na minha porta e me falar, olhando sério para mim, que me procurava. Procurar por mim soava estranho. Como se eu não estivesse sempre aqui.

Como assim? De novo? Outra vez aquela história de você me querer. Falando desse tal desejo que era assunto encerrado faz tempo. Pedi pra você voltar duas casinhas e me dizer qual foi a parte do não vai rolar que estava desentendida. Você me olhou. E continuou me olhando, muito sério, enquanto tirava os óculos. Nunca conheci você como uma pessoa séria. Somos assim, de rir muito de tudo. Mas, sem óculos, parado ali, eu tinha de olhar para os seus olhos. Meio incômodo você na minha frente todo molhado. E sem óculos. Naquele instante, era como uma espécie de nudez toda sua diante de mim. Eu, descomposta, roupas soltas de faxina, descalça e descabelada. Ia nisso também outra nudez: a minha diante de você, parado ali, absurdamente me querendo naquele dia feriado. E com chuva.

 

Expliquei-lhe então tudo outra vez. Você é só uma pessoa para mim. E pessoas não têm sexo. Pessoas estão aquém ou além da sexualidade, e desta eu já nem me lembrava mais, desde que me fora cirurgicamente removida. Não adiantou explicar. Nem falar pra você sobre o meu olhar agudo lançado ao mundo. Minhas vontades e minhas não vontades. Tentei mais uma vez retornar aos fatos, racionalmente. Minha lógica, naquele momento, não dispensava argumentos. Falei e cansei, porque, o tempo todo, você só me olhava. E olhava para a minha boca enquanto eu falava. Ia chegando perto, mais perto.  Parei de falar por conta dos seus beijos. Um pouco tímidos primeiro. Depois mais insistentes. Não correspondi. Mas fui deixando que você me beijasse. Você não ia me ouvir mesmo. Não quis lhe dar um daqueles empurrões estilo chega pra lá, como sempre, porque desta vez você estava sério. Das outras vezes, tudo era riso e brincadeira.

Beijos. Só isso. E a chuva. E o feriado. Você me beijando era quase um pecado, mas beijava. Com ansiedade, sim, mas vagarosamente. Na hora pensei que, afinal, era só você e que ia passar. Mas estava demorando tanto. Comecei a perceber que sua boca era macia e que a pressão estava certa. Deixei que você colocasse sua língua dentro da minha boca, e você fez isso bem devagar. Eu espreitava cada movimento seu. ― Maldita lucidez! ― Percebia os seus músculos sob a roupa molhada, o seu cheiro e as batidas do seu coração. Me aproximei um pouco mais do seu corpo e senti que os seus braços me puxavam. Você era firme, me atraía para perto de você, mas fazia isso delicadamente. Como se soubesse calcular as forças e, sem me arrastar para muito perto, não deixava, de jeito nenhum, que eu fosse para mais longe. Não fui. Deixei que o meu corpo chegasse muito perto do seu. Notei o quanto de desejo havia ali, entre as suas pernas. Sorri naquela hora, porque era tudo muito inusitado. O feriado, a chuva, a surpresa, seus beijos, seu desejo explícito e eu, bem ali, no meio de tudo aquilo.

Notei que o seu tamanho combinava com o meu, mesmo que você seja bem maior. O seu beijo passou a ser também o meu beijo, e o seu corpo se somou ao meu corpo. Sua barba um pouco crescida me arranhava deliciosamente. Depois percebi que não estava mais sentindo o chão e que você estava me levando para o meu quarto. Via as paredes da casa ficando atrás de nós. A porta estava aberta. A cama, arrumada.

A chuva então despencou com força. Era musical. Eu tinha, sim, muito presente todos os meus discursos, todas as minhas teses, toda a arrogância que me distanciava do corpo há tanto tempo. Tinha tudo isso presente, tão presente quanto o absurdo daquela situação que não era para ser. Maldita lucidez. Era você bem ali, e também eu, e estávamos nos beijando, no meu quarto, diante da minha cama. Era algo meio surrealista. Pensei afinal que, se fosse pra ser, teria preferido um dia no qual eu pudesse estar menos vulnerável. Porque eu estava vulnerável naquele momento: descomposta, descalça e descabelada. Você só parou de me beijar quando, de pé, na minha frente, com as mãos pressionando os meus ombros, me fez sentar à beira da cama, prendendo meus joelhos entre as suas pernas. Sem deixar de olhar para mim, você tirou o seu blusão molhado. Depois, a camisa. Pude olhar pra você em detalhes. Não falamos mais nada, mas percebi, pelo seu olhar, que você me pedia para não lhe dizer não. E eu sei que, se lhe pedisse para parar, você pararia. Mas eu não pedi, e você não parou. Também não impedi que você tirasse o resto das suas roupas, nem que você tirasse todas as minhas, nem que me visse nua. Não importava mais àquela altura o meu corpo, porque eu via, sim, era o seu corpo bem de perto e todo o seu desejo que, naquela hora, ia todo para mim. Eu não disse nada. Apenas dei lugar para você se deitar do meu lado na cama. A chuva não parava, e eu via que, se ela não parava, eu também não ia pedir para você parar, porque as águas da chuva lá fora inacreditavelmente vieram ter comigo. Percebi então que o seu desejo era o meu desejo. Simplesmente eu também estava ali querendo que você continuasse a me abraçar daquele jeito. Não havia planos. Só aquele instante. E a chuva. Deixei que você percorresse meu corpo. Me enterneceu perceber que você me descobria como criança diante de um brinquedo desconhecido, que você me olhava, me examinava, e me acariciava docemente. Depois, com força, me abraçava como se eu fosse fugir. Não fugi. Sempre pensei que você seria o último homem com quem eu me deitaria. Tinha absoluta certeza de que você não saberia como me tocar, nem onde. Mas a cada gesto seu, eu me descobria múltipla. Suas mãos e sua boca percorreram regiões do meu corpo de cuja existência eu nem suspeitava. Eu sentia o seu desejo, e ele era o meu desejo também, e a chuva era o ritmo daquilo tudo. Ora forte, com trovões e relâmpagos, ora sossegada, quase uma garoa. Comecei então a tocar no seu corpo e senti que, sob as minhas mãos, seu desejo respondia mesmo aos toques mais sutis. Ao final, algo se criou ali. Espécie de nós dois, tão descompensados, tão desiguais. Quando passou, nos encostamos um no outro. Breve olhar que selou mais uma cumplicidade: vamos selecionar essa última hora, deletar tudo e fechar sem salvar nada. Atentos, ouvíamos a chuva e o tempo que, em breve, ia recomeçar sua contagem. Sempre em silêncio, porque não havia nada para dizer. Depois tudo aquilo pareceu distante e estranho. Só me lembro dos sinos, que tocavam insistentemente ao longe, e depois mais de perto. Era a campainha da porta de entrada. Olhei em volta da cama e percebi ao meu lado apenas um livro aberto. Anoitecia. A chuva molhava as cortinas do quarto. Uma janela aberta batia com vento. O sino da campainha soou outra vez.

Sonolenta me sentei na cama. Acendi a lâmpada de cabeceira. Descalça, segui pelo corredor e fui até a porta. Era você. Todo molhado. Viera na chuva dizendo que precisava me ver. Respondi então que eu, naquele instante, só precisava mesmo era de um bom café.

 

PorBeatriz Basto

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1 comentário

  1. O chuva aguçou sentidos. O inusitado aconteceu! Amantes sedentos devoraram um ao outro. Ato perfeito, verdadadeiramente humano!

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