Crônica

sábado, 13 de abril de 2019
A vida nos anos 50 quando eu era feliz e não sabia A vida nos anos 50 quando eu era feliz e não sabia Muitos dos contratos de bairro entre o comerciante e o cliente começavam pela palavra de honra e um aperto de mão. As mãos tinham a sua importância nos anos 50. Não só porque se faziam muitas coisas com as mãos; também porque as pessoas que faziam coisas com as mãos ainda não tinham começado a ser desrespeitadas e substituídas por máquinas. Não existiam retiros para idosos. Nem creches.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
Coisas que só acontecem com bibliófilos Coisas que só acontecem com bibliófilos C’est la vie! Chegou o dia em que o desapego se impôs. Tive de me desfazer da metade de minha biblioteca. Imposição cruel. Sacrifiquei boa parte da literatura, todas as enciclopédias ― a literária, inclusive, com seus mais de vinte volumes ―, e todos os livros dedicados a temas, digamos assim, mais leves. Foram diversos carregamentos de pesadas caixas que vi sendo levadas para longe de mim, deixando-me desolada. Em compensação, ― porque parece que sempre é preciso buscar desesperadamente recompensas aos nossos sacrifícios ―, a renúncia me impôs uma revisão geral de tudo.
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
A morte do homem moderno A morte do homem moderno É em vão que se busca o homem moderno. Ele morreu ao final do último século.De pagão na Antiguidade a obediente filho de Deus no Medievo, ele deu ouvidos um dia ao discurso de Descartes. Aos poucos, descobriu a razão, e assimilou um método que mudaria a face do mundo. Fez-se revolucionário ao depois, porque desconfiou do poder, desejou a liberdade e a igualdade.Modernizou-se, enfim. Mudou a face do mundo e a sua própria. A luz divina substituiu-se pela luz da razão e pela força da vontade.
sábado, 14 de abril de 2018
O diagnóstico de Cervantes O diagnóstico de Cervantes O diagnóstico de Cervantes “Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim de encantamentos, como pendências, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas, e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história mais certa no mundo.”
sexta-feira, 16 de março de 2018
Dai à história o que é da história e à memória o que ela escolher Dai à história o que é da história e à memória o que ela escolher Por que se importar com o cotidiano de gente comum que vive a cidade? Uma cidade. Qualquer cidade. O que fazer dessas memórias de um dia a dia que não é história? Fragmentos da vida de gente simples, humilde, que ocupa calçadas com cadeiras e conversa enquanto a Avenida Paulista dá passagem às massas? Que importa?Muito talvez.
terça-feira, 13 de junho de 2017
Dona Maria Dona Maria Faz tempo que não escrevo sobre coisas minhas. Escrevo muito, é verdade, mas quase sempre sobre assuntos que me tangenciam apenas, sem grandes reflexos interiores. Esse processo ― que costuma travestir-se de objetividade ― obriga-me a certo distanciamento do objeto, esta fórmula que vicia o olhar, de sorte que, passado algum tempo, somem-se as minhas crônicas, os meus contos, os meus dizeres que vêm de dentro. Não há tempo nem espaço para contemplar histórias, pensar o mundo pelo mundo. Parece que só se escreve quando não se tem nada a dizer, um nada cheio de tudo, porém, que parece certo, exato, que se refira a coisas que se deixem medir e pesar. Não há tempo a perder tentando ver o outro.
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