Ainda é carnaval ...

sábado, 4 de abril de 2009

Já me disseram que o carnaval foi criado como escape do povo sofrido. Durante um pequeno período de tempo era permitido aos pobres brincar...imitando os achaques bizarros e os olhares de desdém de seus senhores... de nobreza, fantasiando-se de rainhas, de príncipes e de rei Momo, colocando perucas, agitando leques - com ou sem navalhas escondidas...

Ainda é carnaval ...




Um revide de mentirinha orquestrado pela aristocracia interessada em avaliar o humor do povo, permitindo à plebe durante três dias todo tipo de maluquices, bagunça e estripulias, a fim de acalmá-la por mais um ano...

Na Alemanha, locomotiva da economia da Europa, ao contrário do que muitos pensam, o carnaval começa bem mais cedo do que no Brasil.Em várias cidades alemãs, no dia 11 do 11 (novembro), pontualmente às 11horas e 11 minutos começam os festejos momescos... com um desfile, cuja duração geralmente não ultrapassa o tempo de uma partida de futebol. Logo depois, todo mundo volta ao batente.

Os demais eventos carnavalescos nas ruas, em pistas de esqui, estádios de gelo e principalmente nos salões, com gente trajada a rigor, dançandovalsa com passos cruzados à esquerda, ou vestindo roupa típica, ao som de polcas e "Landlers", acontecem nos fins de semana.

O povo se diverte, com cada um aprontando à sua maneira, com ou sem fantasia, com ou sem máscara... porém sem deixar a peteca cair.Ninguém interrompe a produção. Nem a caldeira daquela locomotiva potente chega a esfriar...

Antes, durante e depois dos festejos momescos, tanto na Alemanha, na Áustria ou em outro país da Europa, eventuais episódios de desordem pública são resolvidos pelo guarda mais próximo.É o lado do assim chamado Primeiro Mundo, que nós costumamos curtir,admirando a limpeza das ruas, dos calçadões e dos sanitários públicos,a pontualidade do transporte público, dos lojistas ao abrir e fechar as portas de seus estabelecimentos... e quem sabe, invejando um pouco a ordem que fomenta a economia daqueles países.

Enquanto isso, em pleno outono, aqui em Salvador ainda não nos livramos por completo dos foliões, nem das más línguas, dizendo que por estas plagas o carnaval dura cinco dias... além de um período de pré-, outro de pós-carnaval. Cada um dos dois períodos com duração de 180 dias...Enquanto isso, a folia continua, dia e noite, turistas farofeiros sujando praias e ruas, urinando em via pública, sem ninguém responsável para coibir essa baderna.

Pois é, até o turista estrangeiro, que na terra dele jamais jogou uma baga de cigarro ou um papelucho no chão, jamais atravessou a rua fora da faixa de pedestres, num instante aprende a transgredir com os eternos foliões locais.Isso mostra que esses forasteiros - ao contrário que muitos pensam - não são educados coisa nenhuma e sim apenas adestrados, mantidos em xeque permanente pelo medo de serem multados... de levarem uma reprimenda.Como nesta terra não há multas, nem repressão qualquer por parte de quem deveria combater até as pequenas infrações - embriões da violência - e até crimes ambientais como a poluição sonora, esses turistas tipo "fusquinha"devem sentir-se como pinto no lixo... irmanados com nossos "capitães de areia",enrolados com meninas e meninos de programa.

Será que um dia a gente conseguirá fazer com que o Rei Momo devolva a chave da cidade?Será que a gente conseguirá fazer com que o carnaval acabe na quarta feira de cinzas? Será que um dia os pobres foliões se fartarão de suas travessuras, aceitando limpeza e ordem, a fim de que a cidade possa ter o valor que merece... por suas belezas naturais e arquitetônicas e pelas pessoas de bem que aqui habitam, trabalham e pagam impostos?

No dia que isso acontecer, Salvador, mais precisamente a Barra, se tornará um St. Tropez com um grande número de lojas boas, restaurantinhos e bares transadinhos à beira mar e hotéis de luxo para os moradores do bairro e turistas bons, bem melhores do que os que atualmente vem para cá... usando Salvador apenas como escape da vida medíocre, como cenário de aventuras eróticas baratas.

Enquanto Salvador - com um pouco de ordem, algumas cestas de lixo decentes e uns dois sanitários públicos - tem condições em transformar-se num St. Tropez,St. Tropez, com um verão que dura apenas de junho a setembro e cujas praias tem areia escura e grossa, parecendo pó de pedra, jamais poderá ser como Salvador.



Além disso não há em todo St. Tropez nenhuma taverna gostosa como o Bistrô PortoSol, nem taverneiro  tão simpático e modesto quanto o sujeito que acaba de escrever esta baboseira.


Autor: Reinhard Lackinger
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Existe 1 comentário para esta publicação
sábado, 4/4/2009 por Reinhard Lackinger
Ainda é Carnaval Cidade
Não há comentários a fazer. As fotos colocadas por meu amigo Celso valem mais do que mil textos.
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