O nosso segredo

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Uma ardência absurda começou a tomar conta do meu corpo. Era quente como fogo, mas, ao mesmo tempo, era fria, refrescante até. Ah! — pensei — você me aprontou! Era isso! A história da tal balinha ultra refrescante habilmente — e põe habilidade nisso — introduzida nas minhas entranhas. Começo a rir, e você também, ao mesmo tempo em que o clima entre nós era mantido no auge do tesão. 

Olho para cima e me deparo com a imagem de nós dois refletida no espelho do teto do quarto do motel. Três horas da tarde, dia de trabalho, meio de semana, e a gente supostamente percorrendo alguma cidade satélite da capital. Volto ao clima, mas não esperava por essa. Não que você fosse fazer de verdade, sem que eu percebesse a manobra da balinha. Já entendi que você gosta de me surpreender. Como essa história de desconversar no meio do caminho. Falar em comprar uma peça para o carro em algum ferro velho da periferia. — Vamos na Robauto, — você falou. Em vez disso, depois de percorrer um trecho meio desabitado, entrou direto num motel. Simples, mas limpo, que você já conhecia dos velhos tempos da ex. 

 

Você tem uma incontornável inocência quando me apronta esse tipo de coisa. Mas acho que, com a gente, não poderia ser de outro modo. São as nossas horas, o nosso tempo apressado tomado às rotinas da vida, tempo de puro tesão, e outra palavra não há diante de corpos que funcionam sozinhos, da castidade à pornografia. Gosto de te olhar nessa metamorfose que te faz ir de ogro desajeitado até a sensualidade absurda de um Casanova. O cara que, quando em casa, família reunida, é capaz de sair da sala sorrateiramente, entrar no banheiro e me chamar para, em silêncio, exibir seu desejo no écran do celular. E eu? Entro no clima na mesma hora e, sempre que dá, me mostro em detalhes para você. Assim migramos de castos amigos e sinceros companheiros para cúmplices do que você chama de o nosso segredo.

No início foi bem difícil para mim e creio que para você também. Agora, nem tanto. Não que sejamos mais cínicos do que a maioria. Talvez mais sonsos, porque, seguramente, ninguém desconfia do que aprontamos quando estamos sozinhos. Bobagem sentir culpa por tão pouco. A gente só tem um tipo de atração que nada tem de fatal, que não prejudica ninguém, e que pouco altera essa rotina de trabalho cansativa, muitas vezes frustrante, de nossas vidas. Daí esses eventuais desvios, pontos fora da curva, que nos levam para um motel. São duas, três horas, às vezes um pouco mais, e pronto. Voltamos ao modo operacional básico. Somos, aliás, normais até demais. Quem nos vê até nos toma por conservadores, pessoas regradas e confiáveis, embora muito bem humoradas. 

Confesso que ainda não me habituei a sentir esse desejo por você, a mais improvável de todas as minhas possíveis escolhas no universo masculino. A sós comigo você é outro, ou melhor, é aquele outro que me apareceu em dia de chuva, feriado, de surpresa lá em casa. Desde então, temos colecionado essas horas extras tão íntimas ao longo das quais você é perfeito nota por nota, como instrumento que jamais desafina. E sei que você nem suspeita disso. Diante de você, sou a que se entrega e sou também esta aqui, que tudo pensa, que tudo lê e que agora escreve, enquanto escuta de longe a outra que goza e que não tem nem vergonha de gritar de prazer, de dar gargalhadas com você. É delicioso sorrir, seja agora, por conta da balinha, seja por conta de todas as outras histórias, secretas, que só têm lugar nesta literatura, subtraídas que são à realidade de nossas vidas.

Volto a olhar para cima e me vejo no espelho como a outra da qual invejo os olhos brilhantes, a pele rosada, a cintura mais fina, as pernas compridas que enroscam você, te chamando para dentro de mim. Porque nosso segundo tempo é sempre garantido, e chega antes mesmo da  prorrogação. — Aliás, como é que você consegue isso tão rápido, hein? — Misteriosos hormônios, estranhos desejos, o paradoxo: de um lado, o amigo querido; de outro, o amante que surge do nada, me beija e me acorda para a existência de um corpo que não depende sequer de mim mesma, autônomo que age mais rápido do que posso pensar. Logo eu: tão abstrata, tão teórica, tão intelecto, tão palavra que se cala quando se torna vontade. Abro a boca para o seu beijo e te saboreio como fruto proibido, sentindo na minha boca o sabor refrescante da bala misturado ao seu. 

Não faz muito, você viajou por alguns dias. No reencontro, me apareceu como visitante em plena tarde. Formalidades. Eu te avisei pra não chegar tão perto de mim. Mas você insistiu. Quis saber a cor da minha calcinha e sua mão ligeira — de onde essa maestria? — escorregou por dentro do meu jeans, enquanto a outra me puxava para o quarto de onde só saímos horas depois direto  para um banho quente, rindo e brincando, como sempre, depois de quase desmontarmos minha velha cama que, por muito pouco, não cedeu.

Dia desses, nem uma hora depois de um dos nossos pegas de escritório — tesão corporativo do intervalo — entrei em uma cafeteria para entregar documentos a um velho amigo. O sujeito me olhou como se me visse pela primeira vez na vida. Não conseguiu dissimular a surpresa. Perguntou o que eu tinha que estava assim tão bonita. Dei de ombros, sorri, falei que andava me sentindo mais espiritualizada ultimamente. Saí dali e voltei para casa, pensando que a vida é generosa quando dela não se espera mais nada. Você é gratuito. Existencial. Nosso desejo é mera contingência. É físico, extravagante, amoral, obsceno, pragmático. Verdadeira raridade, porque nos respeitamos e cuidamos um do outro. Além disso, temos o nosso segredo. E isso é tudo.

                                                                               

 

 

 

                                                                             Por Beatriz Basto

 

 

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