Videochamadas

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A chamada é encerrada com você sorrindo pra mim como uma criança e — devo admitir — eu também. Mais um convite direto do banheiro de onde você me pede para te “ajudar” no sexo solitário que — confissão sua — é uma prática cultivada desde a sua mais tenra infância. Só não fiquei mais surpresa com esse seu segredo, porque

 

 

 

conheço a rotina de sua vida. Se, por um lado, é uma brincadeira anômala, por outro, não deixa de ser inofensiva. Válvula de escape, transgressão sem culpa. Culpa? Sim, a culpa é componente incontornável nessa nossa história. Difícil imaginar como não seria assim, se a mentira constrói boa parte das verdades sociais.

Nunca imaginei que essas suas chamadas secretas fossem se tornar frequentes. Em parte, a curiosidade superou a opinião bastante negativa que tenho acerca desse tipo de encontro sexual. Interessante é que aconteceu justamente depois de havermos tomado certas medidas de distanciamento. Não que não seja bom ter você na cama. É bom até demais. O problema é que o seu papel na minha vida é outro. E sabemos disso desde aquela sua inusitada visita, com direito a chuvas e a trovoadas. Enfim, sou eu e meus racionalismos. E tem a culpa, etc. e tal. Conversamos. Não nos vejo sobrevivendo como amantes. O receio de darmos alguma pista, o medo de sermos flagrados em alguma inconsistência e até mesmo o fato de sermos amigos tão leves e alegres. Quando estamos juntos, brincamos o tempo todo. Tipo aquela vez que me assustei quando dei com você debaixo da mesa alisando as minhas pernas. E o que fiz? Me enfiei lá embaixo também, só pra brincar com você. Nada de mais, não fosse uma tarde de trabalho no escritório, com gente séria do outro lado da porta. Isso sinaliza um bem-estar que alguém sempre pode notar, maliciosamente. Melhor parar, dar um tempo. Mas então você argumentou que gosta de sexo também quando está sozinho, e que sozinho não faz mal, porque não seria traição. Coisa de criança, retruquei. Você apenas sorriu e balançou a cabeça como quem diz: me aguarde.

Chamadas de vídeo são uma rotina de trabalho para nós dois, razão pela qual não me assustei ao aceitar mais uma, mesmo fora de hora. Só que não era mais uma. Em lugar do republicano ambiente onde você trabalha quando está em casa, vi o seu rosto bem de perto, tomando todo o écran do celular, com o dedo indicador sobre os lábios me pedindo silêncio. Estranhei a princípio, e só entendi depois, ao perceber que você foi afastando a câmera de seu rosto, aos poucos, bem devagar. Pude ver então que você estava sem camisa. Mais abaixo, você parou, para me mostrar, em close, o tamanho e o estado do seu desejo. Tudo aquilo era tão inusitado que encerrei a chamada, não sem assistir um pouquinho mais do seu show. A coisa toda se deu tarde da noite. Depois de um jantar em família que acontecera horas antes.

 

Eu, de convidada, estava até bonita, usando roupas que raramente uso, tipo aquela calça branca justa, saltos altos e batom. Um pouco culpa sua esse meu reencontro com a vaidade. De fato, me preparei naquela noite para causar surpresa. E causei. Afinal, minha regra básica de elegância não dispensa a discrição. Mas, naquela noite, de caso pensado, eu fui, sim, mais ousada que de hábito. E fiz questão de lhe contar que, entre a roupa e o meu corpo, não havia mais nada. Divertido constatar quantas vezes você, acidentalmente, me tocava de leve sempre que podia, embora mal nos olhássemos no cerimonioso jantar. Só mais tarde, porém, você fez questão de me mostrar o tamanho do seu desejo, por vídeo, e em close.

 

Dias depois, uma chamada com direito a susto. Você arrumando o celular para que eu pudesse, de baixo para cima, contemplar toda sua tesão, quando soou uma batida fortíssima na porta do banheiro onde você estava. Deu para ouvir o seu nome pronunciado com força e irritação, com a frase: “Vai demorar muito ainda?!” Seguiu-se daí o imediato encerramento da transmissão.

 

 

 

Outra vez, você me chamou da praia, enfiado no banheiro, contornando família, hóspedes e convidados. Escondido de todos, fazia das suas, silenciosamente. E eu só observando, rindo por dentro e por fora, enquanto fingia que ia tirar a roupa na sua frente, até tirar mesmo, só pra ver sua cara e a minha, ambos dando risada de nossa tão condenável transgressão.

 

 

Aliás, segundo você, fazendo assim, não há nenhuma transgressão. Traição virtual não existe. Quando entendi que esta era a sua justificativa, me lembrei de ter lido alguma coisa sobre transação de consciência. É uma espécie de negociação que acontece sempre que a culpa de alguém se torna mais leve. O sujeito se convence de que, embora agindo mal, poderia ter feito pior, mas não fez. Tipo a prostituta que se admite como tal, mas assevera ao cliente que sempre respeitou o alheio: “Verdade que sou puta, mas não sou ladra, não!”. Ou o ladrão que, admitindo roubar, ressalta o fato de não ser assassino. Exemplos fortes, mas didáticos. Há outros mais leves, tipo a torta que comi inteira, porém acompanhada de refri diet e seguida de cafezinho sem açúcar. Seu raciocínio acerca de sexo é uma operação muito semelhante: somos absolvidos de um pecado que só acontece na consciência e, é claro, no instante virtual, em que pese nada virtuoso.

 

Hoje não foi diferente. De bem longe desta vez, você me chamou de manhã. Caprichando no zoom, mostrou-se todo, sem roupa alguma, dando a entender que queria me ver de perto também. Coisas que se passaram ao som do chuveiro ligado, para disfarçar de todo mundo o que você apronta fechado no banheiro com seu celular.  Tudo isso tranquilamente. Afinal, não se trata de traição. De jeito nenhum! Porque sexo por videochamada pode, não é? Sem culpas então. Negócio fechado.

 

 

                                                                                                           

 

 

                                                                                                                                             Por Beatriz Basto

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