Acima de qualquer suspeita

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Era para esperar você na esquina de casa. E eu fiz de conta que seria como sempre, mesmo sabendo que não. Há coisas vividas que não eram pra ser. Bem assim com a gente que, sem querer, transou lá em casa naquele dia de chuva. ― Ok, você queria, e eu acabei querendo também. ― Claro que não tem nada de mais transar, mas não tipo eu e você. Qualquer outro estaria ok. Mas você? Não era pra ser, repito desde então pra mim mesma. Não era. Mas agora está feito, e o melhor é fazermos de conta que não aconteceu. Pulamos aquela parte e continuamos bons amigos como sempre.

Você se atrasou. Novidade. Você raramente se atrasa. Entrei no seu carro e seguimos viagem. Como eu previa, ambos tentamos manter nosso modo normal: tudo menos tocar naquele assunto. Até porque nosso encontro envolvia coisas mais sérias. Eu não dei sinal algum do tipo bom te rever. Nem você. Mal nos olhamos. Percebo que nem de longe se toca no assunto que parece morto e enterrado. Fico em silêncio. Procuro ler alguns sinais que eventualmente venham de você. Nada. Isso me angustia. Não quero perder meu amigo, meu companheiro, o cara que não esquece do meu café, que me traz presentes inesperados, porque sempre lembra de alguma coisa da qual eu gosto. Agora esse clima entre nós. E tudo por conta de uma transa.

Estamos na estrada, quietos. Sem música, que você não colocou. Não pintou a alegria comum de nos reencontrarmos a cada poucos dias. Nem o beijo no rosto. Nem o sorriso. Nem os assuntos do dia, a nossa agenda. Sinto a mudança. Viajar com você foi sempre ótimo. Tão divertido que a gente não contava pra ninguém que o trabalho era só desculpa para ouvir Guns ou Pink Floyd bem alto. Especialmente aquele CD que você descolou só pra mim, com Time e os relógios: waiting for someone or something to show you the way. Parar em trechos bonitos das estradas. Procurar a melhor vista. Tirar fotos. Comprar folhagens. E rir da vida, rir dos outros e das coisas que nos acontecem e das que não nos acontecem também. Tirando aquela parte de a gente ter dado uma transada acidental, — acho que foi mesmo um acidente —, sempre fomos alegres companheiros. Receio agora que deixaremos de ser.

Fico teorizando sobre arrependimentos. Que droga aquilo acontecer e estragar o que éramos. Penso na Bíblia. — Que horror! — Mas eu penso, sim, na Bíblia, naquela parte que Adão e Eva se sentem nus, se escondem um do outro e depois ele — só pra variar — culpa Eva pelo pecado de quem comeu quem e, no fim, ficou tudo na conta da cobra e da maçã. Claro que há culpas. Naturalmente que somos eu, a mulher errada, e você, o cara errado, que transaram. Imperdoável. Ainda por cima, segredo, por conta das implicações e das possíveis complicações também. Distraio-me com esses pensamentos e cuido você que dirige quieto. Era previsível que nos estranhássemos. Vamos ao faz de conta que nada aconteceu, mas parecemos culpados e sem graça.

Quilômetros percorridos. Eventualmente, conversas republicanas. Acho que até do tempo falamos antes de ficarmos quietos. Você nem mesmo parecia de bom humor. Eu sem saber direito o que dizer. Reparei que você, sem mais nem menos, saiu para o acostamento da estrada e retornou sem dizer nada. Parou logo adiante em um posto de gasolina. Saiu do carro sem nem mesmo olhar na minha cara. Fiquei no ar. Nem abastecer você abasteceu. Só foi até a loja de conveniência, voltou para o carro e continuou dirigindo como quem retorna. Não lhe perguntei nada. Tirei meu celular da bolsa e me concentrei nas mensagens recebidas e ainda não lidas, enquanto você dirigia em silêncio até parar o carro e me dizer: — Chegamos.

Ergui os olhos e só vi a fachada vermelha de um motel. Olhei para você, e perguntei:

— Como assim?

E você:

— Decidi não te dar chance de me dizer que não.

Pensei que você tinha razão e que talvez eu lhe dissesse que não. Mas só porque era a coisa mais certa a fazer. O portão abriu. Uma decoração um tanto quanto curiosa, mas creio que fazia parte do contexto. Tentei agir naturalmente. Era o quarto 401. Entramos. Você abaixou o portão. Estávamos diante do que deveria ser uma espécie de pagode vermelho e dourado. Subimos dois lances de escadas. Você abriu a porta para eu entrar no quarto. Depois aprovou a cama redonda, montada entre quatro colunas com cortinas que caíam de uma espécie de dossel. Havia espelhos à nossa volta e até no teto havia um, redondo, não muito grande, mas bastante estratégico. De cada canto da cama, correntes e algemas forradas de um tecido bordado que combinava com o verde das cortinas.

Você estava mesmo decidido. Acho que já estava excitado antes de chegar lá e eu não notei nada. O que dizer daquilo tudo? Deixei que você me abraçasse e me beijasse. Ah, você sabe beijar. Faz isso tão bem que beijar você já é quase uma transa. E enquanto nossas bocas simulavam nossos corpos, eu via você se livrar de suas roupas, enquanto procurava, aos poucos, livrar-me das minhas, desta vez, mais devagar, porque você queria me olhar. Eu quis aplacar a força da luz que vinha da janela aberta. Mas você não deixou.  Me senti então como a belle de jour que não gosta de sol, fascinada que sou pela escuridão. Enfim, você concordou em fecharmos ao menos as cortinas. Fico atenta a você, aos seus gestos. Quero interpretar tudo, mas é com o meu corpo que compreendo você. Meu cérebro tropeça nessa linguagem, vinda que sou de homens tão outros, tão diferentes. Há uma vontade que nos acontece a dois, e que contraria tantas coisas, beirando pecados e culpas. Mas, se era chegada a hora de a gente pecar, que fosse então um pecado bem mortal e impenitente. E, visto que era recíproco, eu não iria me proibir de desejar você.

 

Persistia o mistério que havia em nossos encaixes, uma funcionalidade que acontecia sozinha, desta vez mais completa ainda. Eu olhava para você, gravando seus menores detalhes. Deliciava-me em alisar os seus pelos e sentir seus músculos sob a pele lisa e quente. Você tem uma beleza toda sua, que ninguém adivinha e que sequer suspeita. Descobri seus lugares mais sensíveis, que eu acariciava. Não me reconhecia naqueles desejos todos que nem eram meus, em horas de pura inconsequência misturadas ao medo disso tudo terminar em um dramalhão patético. Nesse ponto, só imagino cada uma das figuras que compõem o seu álbum de família e meu sangue frio congela. Seria um julgamento bem ao estilo da velha Inquisição.

 

E pensar que você planejou tudo! Um lado frio seu que eu desconhecia. Tinha até mesmo um lindo e delicado presente surpresa pra mim bem guardado na sua grande e pesada pasta de trabalho. Não duvido que tenha sacado dinheiro na loja de conveniência do posto de gasolina, para não aparecer o pagamento de um motel no seu cartão de crédito. Que sonso você está me saindo…

E que estilo o seu… A ideia de me torturar foi sua. Ah! Você queria me algemar. E ia mesmo fazer isso, não fossem os meus pulsos e tornozelos tão finos que passavam direto pelas algemas. Eu poderia me soltar facilmente das tais amarras, se quisesse. Mas não me soltei. Então, já que você teve a ideia genial de me torturar, por que não o contrário? Sem hesitar, prendi você pelos pulsos e pelos tornozelos, encaixando bem as algemas. Ao contrário de mim, você não conseguiria se soltar sozinho. E eu, literalmente, abusei de você, bem ali, à minha inteira disposição. Mas, como nada é perfeito, o fecho de uma das algemas travou e, por pouco, não tivemos de acionar a portaria do motel para libertar você da torturadora. Bom, tudo isso nos rendeu boas risadas. Talvez nosso bom humor estivesse voltando afinal.

Nossas diferenças são imensas e, por mais que a vida e que as rotinas nos aproximem, tenho para mim que é arriscado demais se deixar levar sei lá por qual fatalidade que nos embaraça e aproxima. Mas sei também que a vida é um risco e um eterno improviso. Criar e recriar instantes roubados às rotinas é um pouco a gente também. E o que for, afinal, é o que será.

Foram bem umas duas horas ou mais de recreio. Não faltou nem você gritar como Tarzan no final, — pronto, contei —, e ser ouvido por todo o motel e até na China, acho eu. Depois de tudo, um bom banho, nos vestimos e voltamos ao normal, às velhas rotinas e às coisas de sempre, que afetam pessoas comuns e comedidas, acima de qualquer suspeita. E quem nos vê juntos, sérios e respeitáveis, embora divertidos, bem compenetrados em nossas tarefas, com certeza, quem nos vê juntos jamais pensaria em algemas, nem em camas redondas, nem em chineses, nem — francamente — no Tarzan.

                                                                                                           Por Beatriz Basto

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